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La Revista de la Pátria
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IDÉIAS
EM REDE / IDEAS EN RED
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Novas
tecnologias digitais:
a construção da subjetividade contemporânea
Ana Maria Nicolaci-da-Costa
Departamento de Psicologia da PUC-Rio
Rio de Janeiro Brasil

La llamada sociedad en red gana visibilidad y concretud
psicológica en las formas de uso de los computadores
y, principalmente, de Internet, produciendo grandes
cambios materializados en nuevas organizaciones subjetivas.
Recientes investigaciones revelaron características
de esos usuarios que parecen ser las que identifican
el sujeto del siglo XXI, características que sorprenden
a la mayoría de los adultos por su diferencia radical
con las de los jóvenes de tiempos pasados. Superada
la sorpresa, la mejor estrategia a seguir como adultos
es la de aprender a sintonizar con esta nueva sensibilidad.
Qualquer exposição sobre os processos por meio
dos quais se dá a construção de organizações subjetivas
em uma determinada sociedade em um dado período de tempo
minimamente pressupõe uma definição e a adoção de duas
importantes premissas.
A definição necessária é a de subjetividade, aqui entendida
como o conjunto de todos os aspectos cognitivos e afetivos
bem como de todas as crenças, usos de linguagem e habilidades
sociais, conscientes ou não, que são internalizados
pelos membros de um determinado grupo social em função
de sua exposição aos valores, comportamentos e visão
de mundo do grupo ao qual pertencem.
No que diz respeito às premissas adotadas, a primeira
é a de que sociedades estão sempre em movimento, sempre
em processo de mudança mais ou menos radical, mais ou
menos acelerado. Tal afirmação é particularmente verdadeira
no caso das sociedades complexas em que vivemos na medida
em que estas não estão somente expostas aos processos
de mudança gerados por razões políticas, econômicas,
religiosas, tecnológicas, etc. de cunho interno, mas
também sofrem fortes influências dos conjuntos de valores
vigentes em outras sociedades do mundo globalizado de
nossos dias.
Já a segunda premissa reza que mudanças sociais, não
importam suas origens, têm um importante papel na construção
da subjetividade dos jovens que lhes são contemporâneos
bem como na transformação da organização subjetiva daqueles
cuja subjetividade havia sido construída antes das mudanças
em pauta. Esta constatação não é nova. Embora usando
uma terminologia diferente, o sociólogo Georg Simmel
já a deixava claramente registrada em sua discussão
sobre o surgimento das grandes metrópoles na virada
do século XIX para o XX. Então, ele dizia que "de cada
ponto da superfície da experiência (...) pode-se deixar
cair um fi o de prumo para o interior da profundeza
do psiquismo, de tal modo que todas as exterioridades
mais banais da vida estão, em última análise, ligadas
às decisões concernentes ao significado e estilo de
vida" (Simmel, 1902, em Velho, 1987, p. 15).
AS NOVAS TECNOLOGIAS DIGITAIS E A ORGANIZAÇÃO SUBJETIVA
Uma vez explicitadas essa definição e essas premissas,
podemos introduzir a questão que este artigo visa abordar:
o papel que as mudanças produzidas pelas novas tecnologias
digitais (principalmente pelos computadores e pela Internet)
vêm tendo na construção da organização subjetiva dos
jovens contemporâneos (Com este foco em mente, é bom
esclarecer, estaremos aqui deixando de lado as não menos
importantes transformações subjetivas que vêm sofrendo
os membros de faixas etárias mais avançadas, como os
pais e os professores desses jovens). Neste ponto, torna-se
necessário descrever algumas dessas mudanças às quais
acaba de ser feita menção. Todas têm em comum o fato
de que foram produzidas pela interconexão em rede dos
computadores mundiais. Tal interconexão gerou um tipo
de sociedade sem precedentes na história: a chamada
de sociedade em rede, na qual, pelo menos em princípio,
qualquer elemento pode se conectar a qualquer outro.
Nela impera a descentralização e a liberdade de circulação
de tudo aquilo que não é material, não havendo caminhos
pré-estipulados, fronteiras geográficas e outras barreiras
congêneres.
Este tipo de organização social ganha visibilidade e
concretude psicológica nas formas de uso dos computadores
e, principalmente, da Internet. As possibilidades
que o usuário experimenta ao lidar com um computador
conectado à Internet são várias e, quase invariavelmente,
bastante prazerosas para ele (principalmente se é jovem)
na medida em que quase sempre produzem uma sensação
de muita liberdade, mobilidade e poder. Viagens
sem roteiro fixo a partir dos links de hipertexto. Inúmeros
ambientes que congregam pessoas com interesses análogos,
em muitos dos quais pode-se expressar livremente (geralmente
por escrito) o que se pensa e o que se deseja sob a
cobertura de apelidos protetores da identidade. Incontáveis
maneiras de saciar a curiosidade e de explorar o desconhecido.
A possibilidade sempre presente de manter diversas "janelas"
simultaneamente abertas para o mundo e de executar diversas
tarefas ao mesmo tempo. E muito mais.
Cabe agora perguntar qual o papel que essas mudanças
de fato podem ter na construção de novas organizações
subjetivas e o que se pode fazer para observar seu real
impacto nessa construção.
Começarei pela última dessas duas perguntas. Isso porque
é importante que deixe claro que conhecer uma nova organização
subjetiva não é tarefa fácil nem rápida por duas razões
principais: (a) na medida em que é sempre invisível,
uma organização subjetiva não pode ser observada diretamente
(o que é observável é sempre o comportamento e não aquilo
que está por trás dele), ou seja, a ela só podemos ter
acesso por meio de indicadores externos daquilo que
se passa internamente; (b) na medida em que é extremamente
complexa, uma organização subjetiva não pode ser investigada
como um todo e, sim, em etapas - com objetivos bem definidos
embora parciais - para que uma noção de conjunto possa
eventualmente ser construída.
É exatamente essa visão de conjunto que começa a ganhar
contornos nítidos nos dias de hoje, mais de uma década
após a difusão dos computadores pessoais e da Internet.
Dado, porém, que uma ampla revisão da literatura excederia
o espaço disponível para a presente exposição, opto
por concentrá-la nos resultados dos diversos trabalhos
que vêm sendo produzidos pelo Núcleo de Estudos sobre
Tecnologia e Subjetividade (NETS) do Departamento de
Psicologia da PUC-Rio, do qual sou fundadora e coordenadora[1]
Em cada um dos trabalhos listados neste site há, porém,
inúmeras referências a trabalhos realizados por outros
pesquisadores.
Ainda no ano de 1997, ou seja, nos primeiríssimos tempos
de difusão da Internet no Brasil, minhas próprias investigações
dos impactos subjetivos da Internet sobre seus usuários
brasileiros (Nicolaci-da- Costa, 1998) revelavam que,
já em seus primeiros momentos, a Internet estava gerando
profundas alterações e subvertendo importantes expectativas
em praticamente todas as áreas da experiência cotidiana.
De fato, esses primeiros resultados revelavam um esboço
do perfil de um sujeito - o homem ou a mulher do século
XXI - que pensa, age, sente, faz uso da linguagem, se
relaciona com os outros e consigo mesmo de modos que
são muito diferentes daqueles dos de seus predecessores.
Isso, no entanto, ainda era muito vago. Cabia aprofundar
a investigação dessas características do sujeito do
século XXI. Para tanto, foram realizadas várias pesquisas
com usuários da Internet ou com profissionais (terapeutas
e educadores) que lidavam com esses usuários.
O QUE DIZEM AS PESQUISAS
O conjunto dessas pesquisas revelou muitas características
desses usuários, características essas que, na medida
em que o que acontece no ambiente virtual é quase sempre
transposto para o ambiente "real", parecem ser aquelas
que identificam o sujeito do século XXI. Ao que nossos
resultados indicam, este é:
1) Um sujeito que sente prazer em praticamente tudo
o que faz online. De fato, o prazer parece ser a principal
tônica dos novos modos de ser. Até mesmo as obrigações,
como os trabalhos escolares, podem ser transformados
em tarefas prazerosas se realizados online e, melhor
ainda, se realizados em interação com outros usuários.
2) Um sujeito que está disposto a experimentar novas
formas de ser. Na vida real, é difícil experimentar
sem se expor. Já online, com a cobertura oferecida
pelo anonimato dos apelidos, os jovens podem ousar sem
se identificar, tendo sempre interlocutores que lhes
dão retorno sobre aquilo que revelam ser. Tais interações
podem se constituir em importantes formas de auto-conhecimento.
3) Um sujeito multi-tarefa, que faz diversas coisas
ao mesmo tempo. Esta característica é de difícil apreensão
por todos aqueles que foram socializados para executar
tarefas em seqüência. Tem, porém, o atrativo de eliminar
o tédio gerado por tarefas que exigem muita concentração.
4) Um sujeito que é ágil e está em constante movimento
(mesmo quando seu corpo não se desloca). A agilidade,
a movimentação e a curiosidade sempre foram atributos
associados à juventude. A Internet (e, mais recentemente,
a telefonia celular) dá novas dimensões a essa agilidade,
que não mais está confinada a deslocamentos físicos
nem tampouco à estabilidade dos conhecimentos registrados
em enciclopédias. Tanto o deslocamento de um ambiente
virtual para o outro quanto o conhecimento tornam-se
passíveis de alterações de rumos e/ou definições.
5) Um sujeito que, por meio da mobilidade de sua escrita
e não do seu deslocamento físico, habita vários espaços
(muitas vezes simultaneamente). Nestes espaços - como,
por exemplo, os de programas interativos online como
o Messenger, o Orkut e os blogs - ganha acesso a diferentes
realidades (culturais, imaginárias, sociais, etc.).
Esta mobilidade, por sua vez, relativiza seu conhecimento
e combate seus preconceitos.
6) Um sujeito que, nestes espaços, pode se apresentar
com identidades e características diferenciadas, ou
seja, pode construir diferentes narrativas (verídicas
ou não, sinceras ou não, anônimas ou não) a respeito
de si mesmo. Acrescente-se a isso o fato de que, dado
que essas diferentes narrativas são construídas para
seus interlocutores em ambientes interativos, este sujeito
pode ter importantes retornos sobre aquilo que revela
ser.
7) Um sujeito que, em função do retorno que recebe a
partir do que escreve sobre si, submete as definições
de si a um constante processo de revisão.
8) Um sujeito que, por se expor a tantos espaços, realidades,
experiências e retornos, tem a si mesmo como a única
fonte de integração possível dos resultados dessas múltiplas
exposições e múltiplos retornos.
9) Um sujeito que, em conseqüência dessas múltiplas
exposições, desses múltiplos retornos e das integrações
possíveis, submete a um constante processo de definição
e redefinição as fronteiras entre as esferas do público
e do privado (para a defesa das quais cria novas formas
e lança mão de novos recursos).
10) Um sujeito que está tendo dificuldades para encontrar
fórmulas para se proteger dos excessos gerados por sua
constante mobilidade e exposição à diversidade.
11) Um sujeito que, por efetuar, ele próprio, um recorte
nas realidades às quais está exposto, torna-se cada
vez mais singular e auto-referido.
12) Um sujeito que é flexível, adaptável, inquieto e
ávido de novas experiências.
13) Um sujeito que conhece poucos limites para seus
desejos.
A maioria dos adultos se surpreende com essas características,
tão radicalmente diferentes daquelas dos jovens de tempos
passados. Esta surpresa, no entanto, pode gerar diferentes
reações. Muitos são tomados de horror e indignação.
Felizmente, contudo, alguns - entre os quais espera-se
que estejam aqueles cuja missão é a de educar esses
jovens para viver em um novo mundo - têm sensibilidade
suficiente para perceber que a melhor estratégia é a
de aprender a sintonizar com essa nova subjetividade.
Para tanto, contam com os subsídios fornecidos por aqueles
que, como nós e muitos outros, tomam-na como objeto
de suas pesquisas. (NA)
[1] (ver http://www.puc-rio.br/sobrepuc/depto/ psicologia/pesquisas.html#amnc
).
Nicolaci-da-Costa,
A.M. (1998), Na malha da Rede: Os aspectos íntimos da
Internet. Rio de Janeiro: Editora Campus.
Simmel, G. (1987). A metrópole e a vida mental.
Em O. G. Velho (Org.), O fenômeno urbano (pp. 11-25).
Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1987. (Original publicado
em 1902)
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