Revista

L
a Revista de la Pátria Grande

EDITORIAL

Migrações

Foto: Adriana Zenbrauskas

A relevância do fenômeno das migrações internacionais contemporâneas vem sendo, ao longo das ultimas décadas, notório objeto de atenção política e mediática, e campo intelectual de exaustivo tratamento. Domínio merecedor de um significativo volume de contribuições, tanto de caráter teórico como empírico, atesta à diversidade de seus significados e implicações diretas na bio-política de uma expressiva parcela da humanidade. Parte dessas contribuições volta-se à reflexão das transformações econômicas, sociais, políticas, culturais e demográficas em andamento, especialmente a partir dos anos 1980. Como bases desta reflexão, situam-se as mudanças decorrentes da reestruturação do mundo produtivo, mutações que vêm implicando novas modalidades de mobilidade do capital e de fluxos populacionais em diferentes regiões do mundo. Constata-se que dos 191 milhões de pessoas no mundo que moram fora dos países onde nasceram, 25 milhões -aproximadamente 13% do total- são de origem latino-americana e caribenha, transformando a migração num componente essencial e inevitável da vida social e da economia de cada país de nossa região.

Nos últimos cinqüenta anos as migrações mundiais reforçam sua característica eminentemente "pós-colonial" a partir do fato de que, após a II Guerra Mundial, países com um passado colonial começam a ser o destino escolhido por migrantes oriundos das suas ex-colônias. Por outro lado, na América Latina e no Caribe o fenômeno da mobilidade humana passou a expressar novas tendências e significativas mudanças nos padrões migratórios, a saber: a imigração de ultramar que registrou um esgotamento indeclinável; a migração intra-regional, que experimentou uma modesta intensidade e mantém um predomínio feminino; e a emigração em direção aos Estados Unidos e à Comunidade Européia, que concentra mais de três-quartas partes dos migrantes da região e se inscreve dentro do padrão migratório Sul-Norte. Como efeitos destes deslocamentos, os países imperiais vão enfrentar as problemáticas relativas à diversidade cultural, ao pertencimento, e à necessidade de redefinir suas identidades nacionais, enquanto as comunidades de migrantes se defrontam com o dilema de sua condição de sub-cidadania no mundo globalizado.

Hoje o debate travado em torno das migrações descobre visões de mundo e postulados ideológicas que se confrontam na tentativa de entendimento crítico das contradições e crise da ordem capitalista hegemônica. Depois do fim da guerra fria e da expansão da etapa de flexibilização de acumulação de capital, alinharam-se os países desenvolvidos e em desenvolvimento, colocando em risco as possibilidades dos desfavorecidos que não pertencem a ordem dos ricos e industrializados. Esta dinâmica gerou novos cenários de exclusão e pobreza à par de novas "ilhas" internas de dinamismo econômico e limites para a expansão da cidadania e a proteção social. Assim, os atuais movimentos migratórios configuram a contrapartida da reestruturação territorial planetária intrinsecamente relacionada à reorganização econômico-produtiva e social do capitalismo globalizado. Vivenciamos também o que Bauman denominou "fim da era Espaço como físico territorial relacionada à nação-limite", no âmbito do qual especialmente as instituições e os aparatos oficiais fixam o tripé território/local/lugar. Desde essa perspectiva, o indivíduo contemporâneo enquanto migrante (des)marca a significação estática do local/território ao desarticular o concreto e coletivo de forma individual. Esta conjuntura define uma tensão estrutural permanente entre o conjunto de práticas subjetivas a partir das quais se expressa a mobilidade do trabalho, e a tentativa do capital de exercer sobre essas práticas um controle "despótico", valendo-se da mediação fundamental do Estado.

Nesse cenário, as subjetividades produzidas pela tensão permanente entre a autonomia do trabalho, suas linhas de fuga, e as tentativas de captura e controle do Estado seriam o gesto para reconstruir de forma paradigmática as formas gerais da submissão ao capital. A "marcha da liberdade" processo caracterizado pela mobilidade, pela movimentação, atravessado por conflitos e lutas, passa a evidenciar o aspecto constituinte das migrações atuais. Ele define um processo no qual as lutas vêm sempre em primeiro lugar. Lutas que podem ser interpretadas em função dos fatores que as determinam ao longo da experiência migratória e como referência essencial para uma nova concepção dos migrantes, em que eles deixam de ser "vitimizados", para operar como sujeitos que se expressam através da resistência e de práticas conflituais inovadoras. Se as migrações expressam processos sociais desagregadores podem simultaneamente proclamar uma permanente capacidade de recomposição. As resistências e as linhas de fuga traçadas pelos migrantes ofereceriam um ponto de vista privilegiado para compreender essas novas subjetividades que emergem destas "diásporas". Na América Latina caminhamos no sentido de entender a migração contemporânea como uma dinâmica complexa, configurada pelos sujeitos que a efetivam e suas circunstancias.

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