|
Conferência
Nacional de Educação Básica: alguns apontamentos
Isabel Lelis
Professora e pesquisadora do Departamento de Educação
da PUC-Rio.
Rio de Janeiro - Brasil
isabell@edu.com.puc-rio.br

La Conferencia Nacional de Educación Básica, organizada
en Brasil en abril del presente año por numerosas
entidades vinculadas a la sociedad civil, representó
la posibilidad de que la sociedad organizada discuta
la construcción de un sistema nacional articulado
de educación, teniendo en vista la conquista de la
calidad social de la educación básica. El encuentro
reunió más de 1500 personas y se espera que sus resultados
continúen en la agenda de secretarías de educación,
universidades, partidos políticos, ONGs, ya que en
la lucha cotidiana de cada institución debe constituirse
la consciencia ciudadana.
Entre 14 e 18 de abril desse ano, realizou-se
em Brasília no Centro de Convenções Tancredo Neves
a Conferência Nacional de Educação Básica.
Organizada por um sem número de entidades vinculadas
à sociedade civil como o movimento social do campo,
a Confederação nacional da associação de pais e alunos,
a União brasileira dos estudantes secundaristas e
representantes de ministérios (em especial do ministério
da educação), comissões da câmara de deputados, do
senado federal, de grupos indígenas, quilombolas,
do movimento negro, de sindicatos e associações profissionais
entre outros, o encontro representou a possibilidade
da sociedade brasileira organizada discutir a construção
de um sistema nacional articulado de educação tendo
em vista a conquista da qualidade social da educação
básica.

A conferência constituiu-se em desdobramento de uma
dinâmica iniciada em 2007, através de Conferências
Estaduais de Educação e apoiou-se sobre cinco eixos
temáticos ordenadores do debate:
I Os desafios da construção de um sistema nacional
articulado de Educação
II Democratização de gestão e qualidade social
da educação básica.
III Construção do regime de colaboração entre
os sistemas de ensino, tendo como um dos instrumentos,
o financiamento da Educação.
IV Inclusão e Diversidade na educação básica.
V Formação e valorização profissional.
Na verdade, cada eixo temático foi desdobrado em conferências
e colóquios com a preocupação de cobrir aspectos como
informações técnicas e políticas sobre os temas, documento-base
formalizado pela comissão organizadora nacional (ponto
de partida obrigatório para todas as apresentações),
análise das políticas públicas educacionais da última
década, contribuições dos diferentes segmentos sociais
e apresentação de propostas de diretrizes.
Com uma agenda extremamente rica de possibilidades
de leitura acerca da educação brasileira hoje, o encontro
reuniu mais de 1500 pessoas entre delegados e observadores
em torno a 34 colóquios, mesas de interesse e 5 conferências.
Deve ser destacada a ausência da universidade brasileira
na figura de seus professores, só quebrada pelo convite
feito a alguns pesquisadores determinados para participação
em alguns colóquios.
Os participantes distribuíam-se em quatro categorias:
delegados eleitos nos estados com direito a voz e
voto nos órgãos da conferência; delegados natos com
direito também à voz e voto; delegados por indicação
nacional com direito à voz e voto e observadores apenas
com direito a voz.
O fato da comissão organizadora ter estabelecido um
número mínimo de delegados por estado e por segmento
da sociedade brasileira possibilitou que grupos sociais
historicamente excluídos tivessem assento na conferência
como os quilombolas (em número de 30), indígenas (também
em número de 30), o movimento negro (20). Se é verdade
que esses números ainda estão muito aquém do desejável
em termos de participação na tomada de decisões sobre
as políticas públicas de educação eles representam
um esforço de ampliação de diálogo, entre de um lado,
Governo, Legislativo, e de outro lado, entidades civis,
profissionais e movimentos sociais.
Com essas características, o encontro foi marcado
mais por um clima de debate político do que acadêmico.
Como estratégia de valorização das diferentes culturas
que integram a nossa sociedade, a Conferência abriu
espaço para a apresentação de alguns grupos de dança
como o Balé popular do Recife, do Congo (ES) do Grupo
Indígena Coral Guarani, da Banda Pequi (GO), do Bumba
meu Boi (DF).
De certa maneira, esse fórum representou um esforço
de colocar lado a lado, o arco da sociedade, a pluralidade
da sociedade brasileira, expressa em uma mistura de
etnias, culturas, linguajares diversos.
UM BALANÇO GERAL
Como balanço do encontro, o que deve ser retido
é a busca por pensar a educação básica a partir de
perspectivas que privilegiaram tanto temas clássicos
como a função social da escola, a gestão democrática
quanto problemáticas mais contemporâneas como a educação
e diversidade sexual, a educação e afrodescendência
e construção da cultura da paz no contexto da escola.
Do ponto de vista da estrutura da conferência, foi
dado um espaço para plenárias de eixos e plenária
final com a finalidade de elaborar sínteses e encaminhar
propostas para a construção de políticas públicas
educacionais, incluindo-se inclusive aquelas emendas
que não foram aprovadas, mas obtiveram pelo menos
30% dos votos da plenária final. Esse dado é importante
por que expressa o espírito do encontro preocupado
em incorporar também propostas não vitoriosas no processo
de votação.
Alguns temas adquiriram uma importância maior. Entre
eles destaca-se a construção de um sistema nacional
de educação, a gestão democrática, a avaliação do
professor.
Com relação ao primeiro aspecto - o da construção
de um sistema nacional de educação - destacamos alguns
desafios a serem vencidos. O primeiro deles refere-se
à desigualdade social e o impacto sobre a educação
brasileira. As profundas diferenças sociais atuam
como instrumento de estratificação social. Para Carlos
Roberto Jamil Cury (PUC-Minas), que abriu a conferência,
o sistema escolar nasce em 1834, excluindo determinados
grupos sociais como os escravos, negros e pessoas
com moléstias contagiosas. E prossegue no contexto
dos anos 30 do século XX, afirmando o seu caráter
dual expresso na educação secundária e superior destinadas
às elites condutoras do país e no ensino pré-vocacional
voltado para as camadas desfavorecidas.
Para o autor, há um divórcio entre os entes federados,
e uma falta de unidade de objetivos que possa dar
conta do estabelecimento de colaboração entre estados,
municípios e governo federal.

Quanto ao tema da política e da gestão, a fala de
Luiz Fernandes Dourado (UFG) traz uma reflexão articulada
em torno a três eixos: a não regulamentação do regime
de colaboração entre os estados, a falta de organicidade
das políticas, planos e propostas educacionais (inclusive
com superposição de políticas) e o acesso, permanência
e gestão como caminho para a verdadeira efetivação
da escola pública. Considerando que a lógica do Estado
é patrimonialista, autoritária, esse autor se pergunta
quais seriam os princípios que devem regulamentar
uma gestão democrática? Para Dourado, uma gestão democrática
passa por vários níveis, por uma política de Estado
como bem público, pela regulamentação de um regime
de colaboração, pelo nível do sistema de ensino, pela
escola (organização e gestão do trabalho pedagógico)
pelo professor na tarefa de garantir uma ação pedagógica
de qualidade. Mas também por um movimento de superação
da mera cultura do ranqueamento introduzida pelos
sistemas de avaliação da educação. Para Dourado, a
construção não se faz sem embates entre grupos, mas
deve ser um movimento de toda a sociedade na direção
de uma maior equalização social, não se reduzindo
apenas a fatores intraescolares. Para o autor, os
dualismos cidade/campo, educação presencial/educação
à distância, ensino médio/ensino profissional precisam
ser ultrapassados pois expressam a fragmentação das
políticas educacionais e do próprio sistema escolar.
Especificamente sobre o tema dos conselhos de educação,
o Professor Genuíno Borognon, membro efetivo destacada
Câmara de Educação Básica e da Câmara de Planejamento
e Legislação e Normas, trouxe para o debate um conjunto
de informações sobre o funcionamento desses órgãos.
Para o Professor Genuíno de 2004 para 2007 houve um
aumento de conselhos municipais de educação, tendo
80% dos municípios brasileiros hoje os seus conselhos,
sendo que 53% possuem planos municipais de educação.
Para o professor, da totalidade dos conselhos 84%
funcionam, 20% tem reuniões uma vez por ano, 26% entre
5 e 10 reuniões e 50% só se reúnem duas a três vezes
por ano. Com esses dados, Borognon buscou mostrar
que o desafio não é o de criar esse tipo de órgão,
mas o de garantir o pleno funcionamento, a representatividade
dos membros na sua composição a partir de diferentes
pontos de vista, a autonomia diante dos órgãos executivos.
Finalmente no que se refere ao tema da avaliação do
professor (tema que mobilizou mais de um colóquio),
o debate girou em torno da polêmica premiação das
escolas e dos professores como política de valorização
do magistério. A partir das informações trazidas pelo
Documento base, Isabel Lelis e Márcia Ângela Aguiar
(UFPE e Presidente atual da ANPED) analisaram os equívocos
desse tipo de política e suas conseqüências para o
trabalho escolar.
Entre os muitos argumentos levantados, destacaram-
se algumas questões como a de que o sucesso ou o fracasso
dos estudantes depende de uma série de fatores extraescolares
e intraescolares; a avaliação deve levar em conta
as variáveis que contribuem para a aprendizagem e
os contextos culturais nos quais se realizam os processos
de ensino; a recusa a premiações, pois representam
uma visão empresarial da gestão podendo colaborar
para um clima de competitividade e não colegialidade
entre os professores. Deve ainda a avaliação levar
em consideração os salários e carreira do professor,
as condições físicas e de equipamento das escolas,
o tempo de permanência do estudante na escola, o atendimento
extraescolar, o número de alunos por turma, o tipo
de gestão das escolas. Todas essas ponderações tinham
como foco a rejeição de qualquer política meritocrática
e de remuneração a partir de avaliação de resultados.

Considerando que esse fórum de educação básica representou
um primeiro esforço de organização da luta por uma
escola de qualidade, garantindo a participação do
Estado e da sociedade civil organizada, o fortalecimento
de princípios e de políticas públicas de democratização
da educação deve continuar a estar na pauta de secretarias
de educação, universidades, partidos políticos, organizações
não governamentais, associações profissionais e científicas
e não se constituir em eventos episódicos. É na
luta cotidiana em cada instituição que vai se forjando
uma consciência cidadã. Se não se encontrar estratégias
de sedimentação dos ganhos a partir de encontros como
a Conferência Nacional de Educação Básica, todo esse
movimento, rico do ponto de vista político, cultural
e educacional tende a esvaziarse, tornando-se
mais uma das muitas iniciativas que já aconteceram
nesse país. Que a Conferência Nacional de Educação
Básica seja um marco na busca por sistemas educacionais
menos injustos, mais democráticos. (NA)
|