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La Revista de la Pátria
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Violência(s)
Violencia(s)

PAULO JORGE DA SILVA RIBEIRO
Doutor em Sociologia pela UERJ. É professor do
Departamento de Sociologia e Política da PUC-Rio e
pesquisador associado do Laboratório de Análise da
Violência da UERJ. Publicou livros e artigos, no Brasil
e no exterior, a respeito de temáticas como cidade,
cultura e violência. Atualmente realiza uma pesquisa,
no RJ, sobre a atuação das milícias na Zona Oeste
da cidade.
Doctor en Sociología por la UERJ. Es profesor del
Departamento de Sociología y Política de la PUC-Río
e investigador asociado del Laboratorio de Análisis
de la Violencia de la UERJ. Publicó libros y artículos,
en Brasil y en el exterior, sobre temas como ciudad,
cultura y violencia. Actualmente se encuentra investigando
el accionar de las milicias en la Zona Oeste de la
ciudad de Río de Janeiro.
pribeiro@puc-rio.br
NA
- Professor Paulo como você desenharia o mapa da violência
na América Latina? As aproximações, as diferenças
que existem, considerando os nossos diferentes países.
PJ - Na América do Sul, por exemplo, nós temos
a questão, principalmente da violência urbana, dos
conflitos urbanos violentos. Dois países enfrentam
gravemente essa questão: o Brasil e a Colômbia.
A Colômbia é um caso absolutamente singular, uma vez
que, durante a década de 90, enfrentou taxas de homicídio
absolutamente absurdas. Chegou a mais de 80/100.000
habitantes, sendo que a média, vista como tolerável
pela OMS, é de 10/100.000 habitantes.
Quando estive em Medelín, conheci a expressão dessa
tragédia. Conheci rapazes que trabalhavam no rabecão.
Na verdade, não era um rabecão, e sim um caminhão,
que carregava, em determinados momentos, mais de 20
corpos. Uma tragédia, fruto dos conflitos entre os
grupos de traficantes, ligados ao narcotráfico, paramilitares
e os órgãos de defesa, ou seja, uma gama de atores
se digladiando de uma forma extremamente cruel.

Havia ainda mais um elemento, as chamadas pandilhas
ou bandas de jovens do Sicarato, jovens matadores
de aluguel. Uma situação absolutamente caótica, que,
parece, foi minimizada nos últimos 12 anos. Os dados
indicam que os índices diminuíram. Mais de um bilhão
de horas de vida foram poupados nos últimos 12 anos.
Como? Em função de três projetos.
Primeiro, o Plano Democrático de Segurança do presidente
Uribe que, entretanto, de democrático tem muito pouco.
Trata-se do apoio americano de 500 milhões de dólares
anuais, embora a Colômbia não receba tudo, porque
uma parte desse recurso fica nos Estados Unidos, para
aquisição de equipamentos e de material bélico, para
treinamento e equipagem do exército colombiano. Tudo
isso por causa das FARC. Elas são um grande problema
para o Uribe. O Plano Democrático consiste tanto na
luta contra as FARC como na inteligência anti-terrorista,
uma questão nevrálgica da segurança pública.
Entretanto, a Colômbia conseguiu produzir o chamado
Plano de Seguridad Ciudadana, que significa Plano
de Segurança Cidadão. São projetos interligados que
envolvem os distritos, ligados aos governos Estaduais
e Municípios. São projetos interligados de rede de
proteção dos jovens e assim os jovens podem abdicar
das armas. Há um enorme projeto para tentar diminuir
a evasão escolar dos jovens, principalmente das periferias.
Em Bogotá, eu vi uma coisa maravilhosa, gigantesca...
Os jovens eram colocados em contato com o computador.
A idéia era seduzi-los e depois de um mês, quando
eles já tinham se familiarizado com a máquina, o professor
perguntava se eles queriam aprender de fato. E
só quando a resposta era afirmativa eles passavam
a fazer aulas regulares de computação. Eles também
passavam a fazer muitas atividades culturais, além
de participar de cursos de capacitação. Mas não eram
cursos para aprender a fazer vassoura ou espanador.
Ao contrário eram oferecidos cursos de web design,
eletricidade, mecânica, entre outros. E mais, eles
recebiam uma bolsa de 300 dólares. Depois, quando
já tinham se transformado em artesão profissional,
o projeto encaminhava-os para uma empresa. A rede
era completa. Ou seja, o jovem era retirado de uma
situação de vulnerabilidade, passava por um processo
de formação e finalmente era colocado em um emprego.
Isso era e é fundamental.
Em Bogotá e Medelín violência não era só um fenômeno
social. Existiam muitas outras formas de violência
e essa é uma diferença em toda a America Latina.
O trânsito, por exemplo, em Bogotá era um dos mais
caóticos do mundo. Bogotá era São Paulo, em menor
escala. Os espaços em Bogotá e Medelín são muito complicados.
Mas houve uma mudança cultural. Pessoas eram contratadas
para fazer performance na rua, para brincar com as
pessoas que não respeitavam as regras de urbanidade.
Ou seja, se começou a civilizar o trânsito, porque
ele é uma das grandes causas da violência urbana.
Em síntese, para virar o jogo da violência foi preciso
haver reforma urbana, projetos de diminuição da evasão
escolar, muitas demissões na polícia e muitas prisões.
Enfim, o caso colombiano é um caso ímpar.
Por outro lado, não aconteceram só coisas boas. Por
exemplo, existem os parapolíticos, são membros do
governo que têm uma ligação direta com os paramilitares
e isso causa muito constrangimento para o presidente
Uribe. Esse ano, por conta dos escândalos que chegaram
até ele, ele deportou 12 líderes paramilitares.
Mas tudo isso tem um preço. Por exemplo, quando um
dos grandes líderes do paramilitarismo de Medelín
(se não me engano, Dom Berna) foi extraditado, os
índices de homicídios quase dobraram no último semestre.
Quer dizer, parece que havia um determinado acordo
de monopolização do crime. Ou seja, quando um grande
líder sai, os grupos começam a se rivalizar novamente,
gerando imensos conflitos. É uma questão muito grave.
Como Bogotá, Medelín e mesmo Cali, na Colômbia,
o Brasil tem cidades muito complexas para se lidar
com a violência. Cada uma delas com um determinado
perfil de violência.
Vitória, por exemplo, é uma cidade onde certamente
a questão de crime organizado é muito séria. Trata-se
das interconexões entre o crime de matadores de membros
do legislativo e, muitas vezes, do próprio executivo.
Para você ter uma idéia, só agora no governo do Paulo
Hartung a sede da Scuderie Detetive LeCoq, que existia
desde o tempo da ditadura, foi fechada. Havia uma
ligação tão umbilical com o Estado, que a sede ficava
num prédio em frente ao Fórum de Vitória. A quantidade
de execuções de jovens era altíssima. E enquanto a
cidade de Vitória é um lugar muito calmo e tranqüilo
a periferia de Vitória é muito complexa. A chamada
grande Vitória tem lugares muito complicados. E embora
os índices ainda sejam significativos, o governador
Paulo Hartung conseguiu desmobilizar alguns desses
grupos de política armada.

Outro caso terrível é Recife. Trata-se de violência
interpessoal. Recife tem favelas gigantescas, muito
pobres, e em determinadas datas acontecem coisas muito
graves naquela cidade. Por exemplo, no dia de pagamento
da população pobre Recife disputa com o Rio o lugar
de capital mais violenta. Ela é muito violenta.
Mas certamente o Rio de Janeiro é a mais complexa
de todas as cidades. Porque no Rio de Janeiro, se
antes o nosso grande problema era o tráfico de drogas,
hoje há a questão das milícias. No caso do tráfico
de drogas tem a séria questão dos jovens, que ao mesmo
tempo em que são produtores, são também as maiores
vítimas da criminalidade. Já o caso das milícias envolve
um verdadeiro "estado paralelo", já que o envolvimento
das próprias forças de segurança (policiais civis
e militares, bombeiros, agentes penitenciários), políticos
em todas as esferas e ainda da perda da soberania
política de vários territórios urbanos da periferia,
remete a um cenário trágico: como recriar tanto a
soberania política, as forças da representação política
e manutenção da ordem legítima pelas forças de segurança;
e ainda reinventar a cidadania - civil, social e política
- junto com equipamentos sociais e culturais naqueles
espaços societários. Este é um desafio ímpar.
É o perfil da vitimização hegemônica da América
Latina: o pobre entre 15 e 25 até 29 anos, dependendo
do país. No Rio, quem enfrenta muitos problemas são
os jovens entre 15 e 25 anos, morador de favela ou
da periferia e negro. Esse é um grupo estigmatizado.
O sociólogo Loic Wacquant chama esse fenômeno de "criminalização
da pobreza". Os locais de pobreza certamente são os
espaços onde a vulnerabilidade social do jovem é infinitamente
mais alta. E onde as forças de repressão do Estado
agem de forma absolutamente impune. Então, você tem
o tráfico de drogas extremamente armado (o Brasil
não é uma rota de tráfico de drogas final, mas é uma
rota meio ainda e o que é significativo é o comércio
varejista de drogas). São grupos extremamente armados,
não para prioritariamente se defenderem da polícia,
mas sim para se defenderem das invasões de outras
facções ou ainda das milícias. E a população pobre,
mais uma vez, fica refém deste cenário hobbesiano.
Para complicar o quadro, existem ainda as chamadas
milícias, em duas áreas. Uma área em Jacarepaguá é
o Rio das Pedras e outra em Campo Grande. São milícias
que estão avançando cada vez mais nas áreas do tráfego
de drogas.
Primeiro com o objetivo de "pacificarem" esses espaços.
O que é uma grande mentira tal qual na Colômbia com
os paramilitares. Vale dizer que mais de 65% das favelas
ocupadas por milícias não tinham o tráfego de drogas
anteriormente. As milícias são um comércio mafioso.
Eles controlam desde o transporte ilegal de vans,
o gás, o gato net, as linhas de transmissão de TV
a cabo e os outros comércios que eles começam a controlar.
Isso é um grande negócio que se expande vertiginosamente.
Reconheço que o crime mais complicado hoje não é o
tráfico, mas sim as milícias. A milícia porque é a
constituição, de fato, de um "paraestado".
É muito próximo ao caso colombiano. É um crime que
junta o Estado: a maior parte dos milicianos são policiais
civis e militares, bombeiros, agentes penitenciários
que se juntam para fazer justiça com as próprias mãos.
Se consideram vingadores sociais para viabilizar
uma "limpeza social". Trata-se de uma idéia extremamente
nazista, fascista, porque não são só os traficantes
que são eliminados. É uma verdadeira limpeza social
segundo a concepção deles. Homossexuais ou qualquer
outro grupo social considerado pernicioso à moral
(deles, milicianos) é automaticamente eliminado.
E um agravante: esse tipo de crime tem hoje uma ligação
umbilical com o aparelho público. E não só com o Executivo.
Várias dessas lideranças milicianas ocupam cargos
no Legislativo criando um cenário extremamente perigoso.
E é uma rua de mão dupla. A imprensa e até pesquisadores
discutem como as milícias estão se apropriando da
política. Na verdade, devemos olhar também pelo outro
lado, ou seja, como a política está se apropriando
das milícias.
Vários políticos que não estão ligados diretamente
a grupos milicianos se envolveram nisso por conta
dos currais eleitorais. Muitos políticos tiveram nas
milícias as suas bases de eleição. É uma relação mais
profunda e grave do que se possa imaginar. É um caso
dramático, que expõe os processos de incivilidade
urbanos e políticos.
Outros países da América Latina apresentam casos muito
graves. Duas questões sempre me assustam muito. Em
primeiro lugar nos países como Nicarágua e El Salvador,
é uma violência decorrente dos seus processos de revolução
e contra revolução, mas também fruto de um efeito
perverso americano. Como muitos jovens foram para
os Estados Unidos, sendo presos e deportados devido
às drogas, vários desses jovens importaram as brigas
de gangues para os seus respectivos países. A violência
nesses países é bastante significativa e esses grupos
têm que ser observados. Instituições como o PNUD,
da ONU, tentam enfrentar esta questão.
Outro caso muito grave e que mais cresce na América
Latina é o caso mexicano. Alguns distritos do México,
no ano passado, tiveram 400 homicídios. E só no segundo
semestre deste ano tiveram 800 homicídios. Por quê?
A briga pelo cartel de drogas está em um nível altíssimo.
O grau de vulnerabilidade, o grau de homicídios é
igualmente alto.
Por sua vez, alguns países têm processos muito mais
tranqüilos de se lidar. O Uruguai e o Chile, por exemplo,
têm cidades, razoavelmente, pacificadas. Mas a sensação
de insegurança é alta. Este é um tema que deve ser
melhor problematizado. O medo é, indubitavelmente,
o sentimento mais globalizado da contemporaneidade.
O medo do "terrorista" - confundido com qualquer jovem
árabe em cidades européias e americanas; dos ciganos
na Itália; dos negros em cidades brasileiras. Estes
"outros fantasmagóricos", convertidos em objetos de
repulsa, são percebidos como devastadores. Na verdade,
a partir desse processo, esses "outros" tornam- se
mais vulneráveis e estigmatizados, representados como
devastadores - mas sendo, em vários momentos, os verdadeiros
devastados -, reproduzindo-se assim a espiral do medo.
Mais do que a violência, o tema da segurança pública
é hoje uma questão que mobiliza agendas públicas,
mentes e corações. A idéia de medo, de insegurança
não é só um problema brasileiro ou latino-americano:
depois do 11 de setembro, o medo alcançou níveis verdadeiramente
assustadores. Porque assustadores? Porque não é só
o medo da minha morte física, mas o medo do outro.
E esse outro normalmente é o pobre, é o excluído.
E as políticas se transformam em fatores mais estigmatizadores
e acabam produzindo mais violência. Violência gerando
violência. Buscam-se soluções rápidas, fáceis, baseadas
no senso comum. O que é um fato bastante grave, bastante
perigoso.
NA - E a questão da violência
no campo?
PJ - Esse é um outro lado da questão colombiana.
A Colômbia, hoje, é o segundo Estado do mundo em número
de refugiados, só perde para o Afeganistão. A violência
no campo colombiano é altíssima. Os refugiados
são um contingente gigantesco, muitos foram seqüestrados
pelas FARC ou por grupos paramilitares. Há uma violência
estrutural no campo devido a um quadro de guerra civil
que ocorre na Colômbia há pelo menos 30/40 anos.
Um caso muito sério, muito grave.
O caso brasileiro de violência no campo é algo ainda
muito pouco estudado, mas que merece atenção. A quantidade
de crimes de vingança, chamados de crimes de honra,
é muito alta no campo. Isso é uma questão ainda pouco
enfrentada. Há também a violência contra o MST e a
violência contra os grupos indígenas que podem ser
encaradas como violência no campo.
Na Guatemala, também há muita violência no campo,
e todas essas são questões com as suas especificidades
locais. Não se pode olhar para a questão da violência
no campo do mesmo modo que se observam as violências
urbanas. Porque há as especificidades culturais das
nações, na América Latina, que são demarcadas por
questões no campo. Por exemplo, nós não resolvemos
questões pré-modernas: reforma agrária, nós ainda
temos que resolver questões relacionadas à distribuição
de terras. Existe um contingente de índios, de pessoas
pobres que são retiradas da terra e isso aumenta a
tensão no campo e o campo leva uma desvantagem gigantesca,
ele é mais invisível que uma favela.
Os crimes do campo não têm visibilidade política e
pública, não chegam normalmente na mídia como chegou
o massacre de El Dourado dos Carajás. Talvez porque
ele tenha se transformado em uma bandeira, ele foi
filmado, ele passou a ser algo visível, caso contrário
ele teria sido simplesmente mais uma das inúmeras
trágicas histórias que nós conhecemos da América Latina.
A questão do campo é muito séria! Assim como a construção
do Estado-Nação é uma questão muito séria ainda a
ser resolvida na América Latina. A violência no campo
assume índices muito assustadores em algumas regiões.
É preciso ressaltar a especificidade, as diferentes
situações de violência no campo e cidade na América
Latina.
Violência, ao mesmo tempo em que é um problema
estrutural, por questões relacionadas à globalização
e ao tráfego de drogas, por exemplo, também tem suas
especificidades culturais. Isso tem que ser observado
quando a gente fala de violência. Falar no plural,
em certo sentido, seria por isso mesmo bem mais adequado.

NA - Fale um pouco sobre
a relação educação, trabalho, pobreza e violência.
PJ - Vamos analisar dois projetos de trajetórias,
um do lado do outro. Um projeto de um jovem de classe
média. A mãe fez um pré-natal perfeito. Ele vai receber
todos os minerais e as vitaminas possíveis para a
sua criação saudável. Ele vai para o pré-primário,
ele vai para o ensino básico, o ensino médio, junto
com isso ele vai fazer cursinhos de inglês, de espanhol.
Ele vai fazer algumas viagens, vai ter acesso à revistas,
à informação, à internet. Depois, quando ele sair
do ensino médio ele possivelmente vai chegar à universidade
onde ele vai ter o maior número de informações. A
grade de sua estruturação é gigantesca. As redes de
proteção dele são bem amplas.
Eu tenho um outro garoto que mora na periferia. Ele
tem vários irmãos, pode sofrer violência intra familiar.
Tem uma educação básica deplorável, para não comentar
até mesmo a alimentação; quando tem acesso à escola,
esta não funciona; quando conclui o ensino básico,
por razões diversas, é levado a abandonar o ensino
médio. O mundo dele, ao contrário daquelas referências
que eu falei do jovem morador da Zona Sul(do curso,
da viagem) está restrito a dois quilômetros quadrados
da favela onde ele mora. Se acharmos que só a cultura
e a educação vão resolver isso, nós estamos fadados
ao fracasso. Não é apenas a cultura ou a escola que
produz sucesso, muitas outras instituições participam
dessa rede de proteção dos jovens.
Acho que os subsídios sociais têm que ser melhor distribuídos
também. Eu acho que falar da educação como um bem
básico é proclamar o óbvio. Falar que ela é suficiente
é outra coisa.
NA - Por que é que você acha
que tantos jovens da classe média têm se envolvido
com questões de violência?
PJ - Não são tantos jovens assim e eles podem
ser vistos como resíduos. Obviamente há uma crise
ética muitas vezes. Até seqüestros no Rio de Janeiro
já foram produzidos por classe média dentro de condomínios
de classe média. Mas o grau de vulnerabilidade para
que um jovem de classe média possa fazer isso é infinitamente
menor do que o de um jovem de periferia. A gente até
pode discutir: o jovem de classe média teve tudo e
escolheu esse caminho. O nome disso é opção. O jovem
da favela também fez opção? Fez. A questão é entre
as oportunidades possíveis, ou seja, de 0 a 100 possibilidades,
o garoto da classe média tem 5 para entrar para o
universo criminoso, já o jovem da periferia tem 60
oportunidades de ir para o crime.
Essa é a questão: para o jovem da classe média, a
quantidade de redes de proteção, de instituições que
o protegeram, o blindaram. Mas alguns fogem, porque
o processo civilizador não consegue proteger todo
mundo.
Hoje, uma pergunta me parece fundamental: como nós
vamos viver em paz com tamanhas desigualdades? E é
preciso perguntar também: como é possível controlar
nossos impulsos, a nossa vontade, algumas vezes, de
matar o outro no trânsito, na discussão? Como fazer
para que sejamos indivíduos controlados? Segundo Norbert
Elias, quanto mais as sociedades são civilizadas,
maior as possibilidades de auto-controle dos impulsos
por parte dos indivíduos.
Por outro lado, é preciso que o Estado seja o único
detentor do monopólio legítimo da força de um determinado
território. É a definição weberiana de Estado por
excelência. Mas por fim tem que haver condições sociais
de distribuição mínimas de bens e serviços a todos,
indiscriminadamente. Sem esses três componentes o
processo não funciona.
NA - Você afirmaria então que há uma relação entre
o não atendimento às necessidades básicas, a pobreza
e a violência?
PJ - Pobreza não explica violência por causa daquilo
que eu chamei a atenção antes. Se pobreza explicasse
a violência, a Índia seria o lugar mais violento do
universo nos últimos 50 anos, pois é um lugar muito
pobre. Pobreza não explica violência. O que explica
é o acesso fácil às armas, por exemplo.
Vejamos, a chamada cidade maravilhosa: será que ela
é tão diferente culturalmente hoje do que foi nos
anos 1970? Não. O que é diferente? A autoridade se
deteriorou, a vida urbana se deteriorou gravemente
no Rio de Janeiro e em várias capitais latinoamericanas.
Mas hoje temos acesso fácil às armas de fogo de fortíssimo
calibre. Neste sentido, o fim da guerra fria foi um
verdadeiro inferno. Porque aquele comércio que era
controlado pelos grandes Estados, pelas duas grandes
nações, EUA e União Soviética, ficou completamente
desgovernado, ou seja, todos têm acesso à armas poderosíssimas
e se matam loucamente. Soma-se a isso um consumo desenfreado
em um mundo que tudo promete: você vai ter tudo, você
vai ter um Nike, você vai ter um celular de última
geração. Ele só não explica como, o objetivo é ter.
Se você não dá acesso e possibilidades para que todos
tenham, então: "eu não peço, eu tomo". Mas aí é que
está a história: todos eles fazem isso? Não. A maior
parte não faz, então pobreza não pode explicar violência.
Mas as razões que explicam a vulnerabilidade dessa
população é algo assustador. Aquela pergunta do Elias,
se eu aplicá-la à realidade latinoamericana, torna-se
o seguinte: como tantas pessoas podem viver em tamanha
miséria e não pegarem em uma arma e ir à luta? Essa
poderia ser a pergunta. Porque existem favelas no
Rio de Janeiro que são tão pobres que nem tráfico
de drogas ali existe. Se for no Vietnam, em Luxemburgo
ou em Acari, tanto faz. A classe média não se mobiliza,
o poder público não se mobiliza e tanto faz como tanto
fez. E as pessoas estão lá, como estão no campo, deserdados,
à espera de alguma terra prometida. É muito grave.

NA - Como é possível superar
isso? Com esse contexto há possibilidade de superação?
PJ - Sim. Se há uma coisa que é absolutamente
genial no ser humano, como diria Nelson Rodrigues,
é que o ser humano é capaz de tudo, até mesmo de boas
ações. Acima de tudo tem que se pensar o seguinte:
violência não é um fenômeno no singular. Violência
doméstica é uma questão cultural. Se eu não conseguir
fazer políticas de intervenção, de proteção à mulher
e de proteção até mesmo de tratamento para os homens
que cometem violência, estamos condenados ao fracasso.
Em relação às políticas de combate ao tráfico de drogas,
é necessário que se 'estrangule' a entrada das drogas,
'estrangular' a entrada de armas e não fazer com que
a máquina se reproduza. Ou seja, não se pode continuar
matando os jovens negros e pobres e parcelas das populações
periféricas. É preciso garantir educação, saúde, cultura
para eles, temos que criar redes de proteção e de
acesso ao mundo do trabalho.
A violência no trânsito pede lições urbanas, intervenções
urbanas de fato. Controlar o acesso aos carros, controlar
o comércio ambulante, controlar ilegalidades. Tudo
isso é crime, tudo isso é desordem urbana. Cada uma
dessas questões tem que ser tratada de forma específica.
Não existe uma chave mágica: vou mudar o Estado para
lidar com questões de violência. E mais do que isso:
violência não é um problema só federal ou estadual
ou municipal, é um problema das três esferas, embora
cada vez mais municipal, por causa dos problemas urbanos
fundamentalmente. Mas se nós não produzirmos políticas
que sejam transversais, que ocupem essas três esferas
de governos e ao mesmo tempo criem redes de proteção
a esses públicos vulneráveis, não vamos produzir políticas
efetivas.
Elas vão continuar reproduzindo as carências sociais,
que são muitas. Projetos bem sucedidos são projetos
interligados. Porque nós temos projetos individuais
muito bons, mas esses projetos não conseguem atuar
em rede. A Colômbia produziu exemplos virtuosos,
conseguiu atuar em rede. Isso é muito importante.
A América Latina não deve procurar inventar a roda
quando lida com políticas de segurança. Políticas
de segurança não são só políticas locais e governamentais;
elas têm que ser políticas de Estado. Os governos
têm que seguir planos estratégicos, visando a diminuição
da letalidade. Uma política de segurança para conter
violência não é a que incentiva a polícia a matar
mais. A função da polícia não é matar e sim proteger
a vida. Isso é outra questão cultural. A sociedade
tem que assumir isso, se perguntar: o quê que nós
queremos. O meu medo é que a sociedade civil, fundamentalmente
a brasileira, se torne cada vez mais avessa aos direitos
humanos e isso é um complicador sem tamanho. A vida
é do meu parente, é do próximo, é do meu vizinho,
essa tem que ser respeitada e garantida. A do outro,
a do garoto negro e pobre, o seu destino é a "vala",
é a morte. Enquanto não se mudar essa idéia de que
aos próximos tudo, enquanto que a todos os outros
fantasmagóricos da sociedade, a morte; é impossível
criar um tipo de cultura cívica minimamente solidária.
Isso é uma carência, uma fragilidade de toda a América
Latina.
NA - Comente um pouco mais
sobre as políticas publicas dessa área?
PJ - As políticas públicas no Brasil normalmente
não conseguem ser integradas. Não conseguem em hipótese
alguma. Há uma fragilidade dessas políticas. Não só
da violência essa é uma das mais marcantes, mas as
políticas raciais, as políticas de gênero também têm
muito pouca integração. É como se entrássemos numa
sala, num apartamento ou num prédio cujos apartamentos
não conhecêssemos todos. Não há um síndico que consiga
estruturar aqueles diversos interesses. Proteger a
todos ali dentro. Cada um está cuidando de si. Então
vira aquilo que chamamos de cabeça-de-porco. Cada
um vai trocar a sua janela, vai botar na forma que
quiser, cada um vai ornamentar o corredor da sua forma,
cada um vai fazer o que bem entender, ou seja, acaba
ninguém se entendendo, produzindo um frankenstein.
Não estou falando de uma política centralizada, não
é isso, é uma política que seja transversal. Ela tem
que proteger os mais vulneráveis para que todos, ao
fim do processo, sejam beneficiados com maior segurança.
O jovem não é protegido somente por educação ou somente
por cultura. O jovem tem que ter desde uma escola
digna, até saúde, acessos culturais, acesso a uma
capacitação profissional para que tenha emprego, para
que tenha uma vida digna e justa. Para que, a partir
daí, ele tenha auto-estima, ele tenha reconhecimento
do seu trabalho. Se não conseguirmos juntar essas
pontas, iremos continuar na mesma situação trágica
em que estamos.
NA - Busca da igualdade, mas com respeito às diferenças.
Fale sobre isso?
PJ - Isso é um paradoxo do mundo moderno, quiçá
pós-moderno. A gente vai ter que inventar uma forma
de conjugar essa problemática. Até os anos 1960, uma
determinada política democrática, fundamentalmente
de esquerda, sempre pensou assim: resolver as questões
do mundo é resolver a questão da redistribuição. A
partir dos anos 1970, o foco se altera. Não mais políticas
universalistas, mas políticas de reconhecimento. Ou
seja, questões de identidades, sua contestação e afirmação,
via a luta das minorias, de gênero, étnicas, raciais
se impõem. O maior desafio do século XXI, não é isto
ou aquilo, redistribuição ou reconhecimento, é conjugar
isto e aquilo, como afirma Nancy Fraser. Criando políticas
de redistribuição extremamente significativas que
possam criar condições mínimas de igualdade societária,
tudo isso somado à políticas de reconhecimento, de
identidade, e que não caiam em substancialismo. Essas
identidades também são flexíveis, são plurais. Como
negociar um mundo com tamanha diversidade? O desafio
é gigantesco. Tem uma brincadeira que eu acho sensacional.
É imaginar assim: os romanos faziam pontes, nós fazemos
pontes tal qual os romanos. E fazemos algumas muito
mais complexas que as dos romanos. Os romanos tinham
problemas de justiça social, nós também temos problemas
de justiça social e não conseguimos equalizar tal
qual quando fazemos pontes. A questão são os problemas
da vida societária, são problemas que envolvem escassez,
diferenças, que envolvem o mínimo consenso de justiça.
Não enfrentar os desafios é que é uma grande covardia.
Nós temos que enfrentar os desafios, do meu ponto
de vista, tentando conciliar esses dois pontos. Política
de distribuição sim e política de reconhecimento que
não se transformem em pólos substancialistas. Produzindo
isso nós vamos dar um avanço bastante significativo
para um mundo com menor sofrimento humano. Um mundo
bom já seria otimista demais, melhor buscar um mundo
possível. (NA)
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NA
- Profesor Paulo, ¿cómo describiría el mapa de la
violencia en América Latina? Cuáles serían los puntos
en común, las diferencias que existen, teniendo en
cuenta nuestros distintos países.
PJ - En América del Sur, por ejemplo, existe,
principalmente, la violencia urbana, es decir, hay
conflictos urbanos violentos. Hay dos países que enfrentan
gravemente ese problema: Brasil y Colombia.
Colombia es un caso absolutamente singular, ya que
durante la década del 90, enfrentó tasas de homicidio
completamente absurdas. Llegó a más de 80/100.000
habitantes, siendo que la media tolerable por la Organización
Mundial de la Salud (OMS) es de 10/100.000 habitantes.
Cuando estuve en Medellín, conocí la expresión de
esa tragedia. Conocí a jóvenes que trabajaban removiendo
cuerpos. Tenían un camión con el que cargaban, en
determinados momentos, más de 20 cuerpos. Una tragedia
fruto de los conflictos entre los grupos y traficantes
ligados al narcotráfico, a los paramilitares y a los
órganos de defensa, o sea, una gama de agentes combatiendo
entre ellos de una forma extremamente cruel.

A todo esto se le sumaba un elemento más: las llamadas
pandillas o bandas de jóvenes de Sicarato -matadores
por encargo-, que dieron lugar a una situación absolutamente
caótica, la que, según parece, ha ido disminuyendo
en los últimos 12 años. Los datos indican que los
índices bajaron. Se han salvado en los últimos 12
años más de mil millones de horas de vida. ¿De qué
manera? En función de tres proyectos.
El primero de ellos es el Plan Democrático de Seguridad
del presidente Uribe, quien, sin embargo, de democrático
tiene muy poco. Se trata del apoyo norteamericano
de 500 millones de dólares anuales, de los cuales
Colombia solo recibe una parte porque la otra parte
de ese recurso queda en los Estados Unidos para la
adquisición de equipamientos y de material bélico,
para entrenamiento y provisión del ejército colombiano.
Todo esto a causa de las FARC. Estas son un gran problema
para Uribe. El Plan Democrático no consiste solamente
en la lucha contra las FARC, sino también en la inteligencia
antiterrorista: una cuestión neurálgica de seguridad
pública.
Pero a pesar de todo, Colombia consiguió llevar a
cabo el llamado Plan de Seguridad Ciudadana. Son proyectos
que se conectan, que involucran a los distritos y
que están ligados a los gobiernos provinciales y municipales.
Son proyectos que forman una red de protección para
que los jóvenes abdiquen de las armas. Existe un gran
proyecto para intentar disminuir la evasión escolar
de los jóvenes, principalmente en las periferias.
En Bogotá presencié algo maravilloso, gigantesco…
Se ponía a los jóvenes en contacto con la computadora.
La idea era seducirlos y después de un mes -una vez
familiarizados con la máquina-, el profesor les preguntaba
si realmente querían aprender. Solamente cuando
la respuesta era afirmativa los jóvenes pasaban a
tener clases regulares de computación. Los mismos
pasaron, también, a participar de muchas actividades
culturales, además de participar de cursos de capacitación.
Pero no eran cursos para aprender a hacer escobas
o plumeros. Al contrario, se les ofrecía cursos de
web design, electricidad, mecánica, entre otros. Más
aún, los jóvenes recibían una beca de 300 dólares.
Después, una vez que se convertía en un artesano profesional,
el proyecto los encaminaba a una empresa. La red era
completa. Es decir, se sacaba al joven de una situación
de vulnerabilidad, se lo hacía pasar por un proceso
y, finalmente, se lo encaminaba a un empleo. Eso era
lo fundamental y aún lo sigue siendo.
En Bogotá y Medellín la violencia no era solamente
un fenómeno social. Existían muchas otras formas de
violencia, las cuales aún hoy constituyen una diferencia
en relación al resto de América Latina.
El tránsito, por ejemplo, en Bogotá era uno de los
más caóticos del mundo. Era San Pablo en menor escala.
Los espacios en Bogotá y Medellín son muy complicados.
Pero hubo un cambio cultural. Algunas personas fueron
contratadas para hacer performance en la calle, para
jugar con las personas que no respetaban las reglas
de urbanidad. Es decir, se comenzó a civilizar el
tránsito, que es una de las grandes causas de violencia
urbana.
En síntesis, para ganarle a la violencia se hicieron
necesarios una reforma urbana, proyectos para disminuir
la evasión escolar, muchos despidos en la policía
y muchas prisiones. En fin, el caso colombiano es
sin igual.
Pero no ocurrieron solamente cosas buenas. Ahora surgieron
los parapolíticos, que son miembros del gobierno que
están directamente ligados a los paramilitares, lo
que le causa un gran descontento al presidente Uribe.
Este año, a causa de los escándalos que afectaron
su imagen, Uribe tuvo que deportar a 12 líderes paramilitares.
Pero todo esto tiene un precio. Por ejemplo, uno de
los líderes del paramilitarismo de Medellín (si no
me equivoco, Don Berna) fue extraditado y, como consecuencia,
los índices de homicidio prácticamente se duplicaron
en el último semestre. Es decir, parece que había
un acuerdo de monopolización del crimen. O sea, cuando
un gran líder sale, los grupos empiezan a rivalizar
nuevamente, generando grandes conflictos. Esto es
algo muy grave.
Así como Bogotá, Medellín e incluso Cali, en Colombia,
también Brasil cuenta con ciudades muy complejas y
en las que es difícil lidiar con la violencia. Cada
una de ellas tiene un determinado perfil de violencia.
Victoria (capital del Estado de Espíritu Santo), por
ejemplo, es una ciudad en la que, ciertamente, el
problema del crimen organizado es muy serio. Existen
conexiones entre los matadores a sueldo y algunos
miembros del poder legislativo y, muchas veces, del
propio ejecutivo. Para que usted tenga una idea, solamente
ahora, en el gobierno de Paulo Hartung, se ha procedido
a cerrar la sede de Scuderie Detetive LeCoc[1] -que
existía desde el tiempo de la dictadura. Existía una
relación tan umbilical con el Estado, que la sede
quedaba en un edificio en frente al Forum de Victoria.
La cantidad de jóvenes ejecutados era altísima. Mientras
la ciudad de Victoria es calma y tranquila, la periferia
es muy compleja. La llamada Gran Victoria tiene lugares
muy complicados. Y a pesar de que los índices aún
son significativos, el gobernador Paulo Hartung consiguió
desarticular a algunos de esos grupos de política
armada. Otro caso terrible es el de la ciudad de Recife
en el Estado de Pernambuco, en donde la violencia
es interpersonal. Recife tiene favelas gigantescas,
muy pobres y en determinadas fechas suceden hechos
muy graves en la ciudad. Por ejemplo, el día que la
población recibe su paga, la tasa de homicidios sobrepasa
la media. Hoy Recife disputa con Río de Janeiro el
título de capital más violenta. Realmente la ciudad
es muy violenta.
Pero, sin duda, Río de Janeiro es la más compleja
de todas las ciudades porque, si antes el gran problema
era el tráfico de drogas, hoy lo es las milicias.
En relación con el tráfico de drogas, al tiempo que
los jóvenes son productores, son también las mayores
víctimas de ese crimen. Ya el problema de las milicias
involucra un verdadero "estado paralelo", puesto que
el envolvimiento de las propias fuerzas de seguridad
(policías civiles, militares, bomberos, agentes penitenciarios),
de políticos en todas las esferas -con la consecuente
pérdida de la soberanía política de varios territorios
urbanos de la periferia-, remite a un escenario trágico:
de qué manera las fuerzas de seguridad pueden reestablecer
la soberanía política, las fuerzas de la representación
política y la manutención del orden legítimo; y también,
cómo reinventar la ciudadanía -civil, religiosa y
política- junto con equipamientos sociales y culturales
en aquellos espacios societarios. Este es un desafío
incomparable.
El perfil de la victimización hegemónica en América
Latina es el del pobre entre 15 y 25 años, pudiendo
extenderse hasta los 29, según el país. En Río, quien
enfrenta muchos problemas es el joven entre 15 y 25
años, que vive en las favelas o en la periferia y
es negro. Este es un grupo estigmatizado. El sociólogo
Loic Wacquant llama a ese fenómeno de "criminalización
de la pobreza". Evidentemente, los lugares de la pobreza
son los espacios en donde la vulnerabilidad social
del joven es infinitamente más alta, y en donde las
fuerzas de represión del Estado actúan de forma absolutamente
impune. Es en ese contexto en el que existe un tráfico
de drogas extremamente armado (Brasil no es el itinerario
final del tráfico de drogas, pero sí un trayecto de
paso, y es muy significativo, en nuestro país, el
comercio minorista de drogas). Son grupos fuertemente
armados, cuyo objetivo primero no es el de defenderse
de la policía, sino de las invasiones de otras facciones
e, inclusive, de las milicias. Y la población pobre,
una vez más, es rehén de este escenario hobbesiano.
Para complicar aún más este cuadro, en Río de Janeiro
las denominadas milicias están ubicadas en dos áreas.
Un área es Rio das Pedras, y la otra Campo Grande,
ambas en el barrio de Jacarepaguá. Se trata de milicias
que están penetrando cada vez más en regiones dominadas
por el tráfico de drogas. Primero, con el objetivo
de "pacificar" esos espacios -lo que es una gran mentira,
así como lo fue en Colombia, cuando el surgimiento
del paramilitarismo. Vale decir que más del 65% de
las favelas ocupadas por milicias, no tenían tráfico
de drogas antes de que estas llegaran. Las milicias
son un comercio mafioso. Controlan desde el transporte
ilegal de combis, pasando por la conexión irregular
de gas, de televisión a cable, hasta llegar a dominar
nuevas formas de comercio. Este es un gran negocio
que se expande vertiginosamente. Reconozco que hoy
el crimen más complicado no es el tráfico, sino las
milicias, porque de hecho son ellas las que constituyen
un "paraestado".
Es muy parecido al caso colombiano. Es un crimen que
involucra al Estado: la mayor parte de los milicianos
son policías civiles y militares, bomberos, agentes
penitenciarios que se juntan para hacer justicia con
sus propias manos. Se consideran vengadores sociales,
cuyo objetivo es viabilizar una "limpieza social".
Se trata de una idea extremamente nazista, fascista,
porque no se elimina solamente a los traficantes.
Es una verdadera limpieza social, según la concepción
de los milicianos. Los homosexuales, o cualquier
otro grupo social considerado por ellos pernicioso
a la moral, son automáticamente eliminados. Y con
un agravante: ese tipo de crimen hoy presenta una
relación umbilical con el aparato político, y no solamente
con el Poder Ejecutivo. Varios de esos líderes milicianos
ocupan cargos en el Poder Legislativo, lo que crea
un escenario extremamente peligroso. Es una calle
de doble mano. La prensa, e inclusive investigadores,
discuten de qué manera las milicias se están apoderando
de la política. En realidad, debemos mirar también
el otro lado, o sea, de qué manera la política se
está apoderando de las milicias.

Varios políticos que no están directamente conectados
a grupos milicianos se acabaron involucrando a causa
de la compra de votos, pues encontraron en las milicias
su base electoral. Esta relación es más profunda y
más grave de lo que se puede imaginar. Es un caso
dramático que expone los procesos de incivilidad urbanos
y políticos.
Otros países de América Latina presentan casos muy
graves. Hay dos temas que siempre me asustan mucho.
En primer lugar, en los países de Nicaragua y El Salvador
hay una violencia que es consecuencia de sus procesos
de revolución y contrarrevolución, pero hay otra que
es fruto de un efecto perverso norteamericano. Como
muchos jóvenes fueron a los Estados Unidos y fueron
presos y deportados debido a las drogas, varios de
ellos importaron a sus respectivos países las peleas
de pandillas. La violencia en estos países es bastante
significativa y esos grupos merecen la debida atención.
Instituciones como el Programa de las Naciones Unidas
para el Desarrollo (PNUD) de la ONU, intentan hacerle
frente a este problema.
Otro caso muy grave -y que es el que más se ha venido
agravando en América Latina- es el caso mexicano.
Algunos distritos de México el año pasado han contado
400 homicidios. Y solamente en el segundo semestre
de este año, se han producido 800 homicidios. ¿Por
qué? Por la pelea por el cartel de drogas que actualmente
se encuentra viviendo su momento más difícil. De igual
manera es dramático el grado de vulnerabilidad y el
grado de homicidios.
Paralelamente, algunos países están batallando con
procesos mucho más tranquilos. Uruguay y Chile, por
ejemplo, tienen ciudades razonablemente pacificadas,
pero la sensación de inseguridad es alta. Este tema
necesita ser mejor problematizado. El miedo es, indudablemente,
el sentimiento más globalizado de la contemporaneidad.
El miedo al "terrorista" -confundido con cualquier
joven árabe en ciudades europeas y americanas-; a
los gitanos, en Italia; a los negros, en las ciudades
brasileñas. A estos "otros fantasmagóricos" se los
convierte en objeto de rechazo y se los ve como devastadores.
Y esa actitud hace que esos "otros" sean cada vez
más vulnerables y estigmatizados. Aunque se los vea
en el papel de personas devastadoras, lo cierto es
que, en muchos momentos, los verdaderos devastados
son ellos. De esta manera, el miedo se reproduce siguiendo
un movimiento en espiral.
Más que el tema de la violencia, es el tema de la
seguridad pública el que hoy moviliza las agendas
públicas, las mentes y los corazones. El miedo, la
inseguridad no son solamente un problema brasileño
o latinoamericano. Después del 11 de septiembre, el
miedo alcanzó niveles verdaderamente inquietantes.
¿Y por qué inquietantes? Porque no se trata solamente
del miedo a mi muerte física, sino también del miedo
al otro. Y ese otro normalmente es el pobre, el excluido.
Y lãs políticas se transforman en factores de estigmatización
y acaban produciendo más violencia. Es violencia que
genera violencia. Y se buscan soluciones rápidas,
fáciles, basadas en el sentido común, lo cual es muy
grave y peligroso.
NA - ¿Y en relación a la
violencia en el campo?
PJ - Ese es el otro lado del problema colombiano.
Colombia, hoy, es el segundo Estado del mundo en número
de refugiados. Afganistán es el primero. La violencia
en el campo colombiano es altísima. Los refugiados
representan un contingente gigantesco. Muchos fueron
secuestrados por las FARC o por grupos paramilitares.
Hay una violencia estructural en el campo, debido
a un cuadro de guerra civil que existe en Colombia
desde hace por lo menos 30/40 años. Un caso muy
serio, muy grave.
El caso brasileño de violencia en el campo todavía
ha sido poco estudiado, pero merece atención. La cantidad
de crímenes por venganza -los llamados crímenes de
honraes muy alta en el campo. Este es un tema al que
se le ha hecho poco caso. Existe también la violencia
contra el Movimiento de los Sin Tierra (MST) y la
violencia contra grupos indígenas, que podríamos considerarlas,
también, formas de violencia en el campo.
En Guatemala también hay mucha violencia en el campo
y esta tiene que ver con sus propias especificidades
locales. No se puede atender al problema de la violencia
en el campo con la misma óptica con que es atendida
la violencia urbana. Esto porque en América Latina
cada nación cuenta con sus especificidades culturales,
las cuales se encuentran demarcadas por problemas
relativos al campo. Por ejemplo, nosotros todavía
no resolvimos problemas premodernos, como la reforma
agraria. Todavía tenemos pendientes temas como la
distribución de tierras. Existe un contingente de
indios, de personas pobres a las que se ha sacado
de las tierras, lo que hace que no solamente aumente
la tensión en el campo, sino que además hace que el
campo se vea enfrentando una enorme desventaja, al
punto de volverse más invisible que una favela.
Los crímenes del campo no tienen visibilidad política
y pública. Normalmente no llegan a los medios de comunicación,
como ocurrió con la masacre de Eldorado dos Carajás[2].
Probablemente este caso haya sido filmado y haya ganado
visibilidad por haberse transformado en una bandera.
De no haber sido así, habría acabado siendo una tragedia
más entre las innúmeras que conocemos en América Latina.
¡El problema del campo es muy serio! Al igual que
la construcción del Estado-Nación, tema que aún debe
ser resuelto en América Latina. La violencia en el
campo asume índices muy asustadores en algunas regiones.
Es necesario resaltar la especificidad, es decir,
las diferentes situaciones de violencia en el campo
y la ciudad latinoamericana.
La violencia, al mismo tiempo que se constituye
en un problema estructural -por cuestiones relacionadas
a la globalización y al tráfico de drogas, por ejemplo-,
tiene sus especificidades culturales. Por eso estas
no pueden ser dejadas de lado al hablar de la violencia.
Y tal vez también por ello, sería más adecuado hablar
de violencia en plural.
NA - Hable un poco sobre
la relación entre educación, trabajo, pobreza y violencia.
PJ - Veamos el análisis de dos proyectos de trayectorias,
ambos sucediendo al mismo tiempo. El primero se trata
de un joven de clase media, del cual la madre hizo
un prenatal perfecto. El chico va a recibir todos
los minerales y las vitaminas posibles para que pueda
crecer con salud. Va a ir al preescolar, a la primaria,
a la secundaria y, paralelamente, hará cursos de inglés,
de portugués. Hará algunos viajes, tendrá acceso a
revistas, a información, a internet. Después, cuando
termine la secundaria, posiblemente va a entrar en
la universidad en donde recibirá el mayor número de
informaciones. Sus posibilidades de estructuración
son enormes. Sus redes de protección son bien amplias.
Hay otro chico que vive en la periferia. Tiene varios
hermanos y tal vez sea víctima de violencia intrafamiliar.
Su educación básica es deplorable y lo mismo se podría
decir de su alimentación. Cuando tiene acceso a la
escuela, esta no funciona. Cuando consigue terminar
la primaria, se depara con la necesidad de abandonar
la secundaria. Su mundo -contrariamente al del joven
ya mencionado antes, que vive en la Zona Sur- se restringe
a los dos quilómetros cuadrados de la favela en donde
vive. Si insistimos en creer que solamente la cultura
y la educación van a resolver eso, entonces, estamos
destinados al fracaso. La cultura y la escuela no
bastan para tener chances de futuro. Existen muchas
otras instituciones que participan de esa red de protección
a los jóvenes.
Creo que los subsidios sociales tendrían que estar
mejor distribuidos. Para mí, hablar de la educación
como un bien básico es proclamar lo obvio. Decir que
es suficiente es otra cosa.
NA - ¿Por qué cree usted que tantos jóvenes de
clase media se han envuelto en situaciones de violencia?
PJ - En realidad no son tantos y creo que ellos
pueden ser vistos como residuos. Obviamente hay una
crisis de ética. Hasta secuestros en Río de Janeiro
fueron perpetrados por la clase media en condominios
de las clases favorecidas. Pero el grado de vulnerabilidad
como para que el joven de clase media haga eso es
infinitamente menor al grado de vulnerabilidad del
joven de la periferia. Podríamos discutir lo siguiente:
el joven de clase media lo tuvo todo y eligió ese
camino. Eso se llama opción. ¿Y el joven de la favela
tuvo opción? Sí, tuvo. El tema es que de todas las
oportunidades posibles, es decir, de 0 a 100 posibilidades,
el chico de clase media tiene 5 para entrar al mundo
del crimen, mientras que el joven de la periferia
tiene 60.
Esta es la cuestión: la calidad de redes de protección,
de instituciones que amparan al joven de clase media,
les sirve de coraza. Pero algunos escapan de ella,
porque el proceso civilizador no consigue dar resguardo
a todo el mundo.
Hoy me parece fundamental que nos hagamos una pregunta:
¿cómo podemos vivir en paz con tales desigualdades?
También necesitamos preguntarnos de qué manera es
posible controlar nuestros impulsos, nuestro deseo,
algunas veces, de matar al otro en el tránsito, en
una discusión. ¿Cómo podemos hacer para convertirnos
en individuos controlados? Según Norbert Elias, cuanto
más civilizadas son las sociedades, mayores son las
posibilidades de los individuos de auto-controlar
sus impulsos. Por el otro lado, es necesario que el
Estado sea el único poseedor del monopolio legítimo
de la fuerza de un determinado territorio. Es la definición
weberiana de Estado por excelencia. Pero, en definitiva,
tienen que existir condiciones sociales que permitan
la distribución de bienes y servicios para todos,
sin discriminación. Sin esos tres componentes el proceso
no funciona.

NA - ¿Usted afirmaría, entonces,
que existe una relación entre el no atender a las
necesidades básicas, la pobreza y la violencia?
PJ - La pobreza no explica la violencia, justamente
por lo expuesto más arriba. Si la pobreza explicara
la violencia, India sería el lugar más violento del
universo en los últimos 50 años, pues es un lugar
muy pobre. Lo que explica la violencia es el fácil
acceso a las armas, por ejemplo.
Veamos la llamada ciudad maravillosa[3]: ¿será hoy
tan diferente, culturalmente hablando, a lo que fue
en los años 70? No. ¿Qué cambió? La autoridad se deterioró.
La vida urbana se deterioró gravemente en Río de Janeiro
y en varias capitales latinoamericanas. Pero hoy es
fácil acceder a las armas de fuego de fuerte calibre.
En este sentido, el fin de la guerra fría fue un verdadero
infierno, porque aquel comercio que era controlado
por los grandes Estados, por las dos grandes naciones
-EEUU y Unión Soviética- quedó completamente desgobernado.
Es decir, todos tienen acceso a armas poderosísimas
y se matan desenfrenadamente. A esto se le suma el
consumo desmedido en un mundo que nos promete todo:
usted puede tener todo, puede tener una Nike, puede
tener un celular de última generación. Lo que este
mundo no nos explica es cómo tener todo eso. El objetivo
es tener. Cuando no se dan las posibilidades para
que todos tengan, entonces, no se pide, se toma. Pero
esa es justamente la cuestión: ¿todos hacen esto?
No, la mayoría no lo hace. Por eso la pobreza no puede
explicar la violencia.
Pero las razones que explican la vulnerabilidad de
esa población pobre realmente asustan. Si intentásemos
aplicar una de las preguntas formuladas más arriba,
a la realidad latinoamericana, tendríamos como resultado
esta otra: ¿cómo es posible que tantas personas puedan
vivir en tal situación de miseria sin agarrar un arma
e ir a la lucha? Porque existen favelas en Río de
Janeiro que son tan pobres que ni siquiera tienen
tráfico de drogas. Si es en Vietnam, en Luxemburgo
o en Acari, da lo mismo. La clase media no se moviliza,
el poder público no se moviliza. Es indistinto. Y
las personas están allá, desheredadas -al igual que
las del campo- a espera de alguna tierra prometida.
Es muy grave.
NA - ¿De qué manera es posible
superar esta situación? ¿Existen posibilidades de
superación con este contexto?
PJ - Sí. Si hay una cosa que es absolutamente
genial en el ser humano, como diría Nelson Rodríguez[4],
es que el ser humano es capaz de todo, incluso de
buenas acciones. Por encima de todo hay que pensar
en lo siguiente: la violencia no es un fenómeno en
singular. La violencia doméstica es una cuestión cultural.
Sin políticas de intervención, de protección a la
mujer e inclusive de protección y tratamiento para
los hombres que cometen actos de violencia, estamos
condenados al fracaso. En relación a las políticas
de combate al tráfico de drogas, es necesario que
las mismas dificulten la entrada de las drogas, que
dificulten la entrada de armas, en vez de contribuir
para que la máquina se reproduzca. No es posible
que se continúe matando a jóvenes negros y pobres
y a parcelas de la población de la periferia. Precisamos
garantizar educación, salud y cultura para esas personas
y crearles redes de protección y de acceso al mundo
del trabajo.
La violencia en el tránsito nos exige aprendizaje,
una auténtica intervención urbana. Debemos controlar
el acceso a los automóviles, el comercio ambulante,
las ilegalidades. Todo eso es crimen, desorden urbano.
Cada una de esas problemáticas debe ser tratada de
forma específica. No existe una fórmula mágica como,
por ejemplo, "voy a cambiar el estado para hacer frente
a los problemas de violencia". Más aún, la violencia
no es un problema únicamente federal o estadual o
municipal, es un problema relacionado con esas tres
esferas -aunque de hecho se ha vuelto cada vez más
municipal, fundamentalmente por los problemas urbanos.
Si no producimos políticas que sean transversales,
que ocupen esas tres esferas de gobiernos y que al
mismo tiempo busquen crear redes de protección para
esos públicos vulnerables, entonces no produciremos
políticas efectivas. Continuaremos reproduciendo las
carencias sociales, que son muchas. Los proyectos
que tienen éxito son aquellos que se interconectan.
Contamos con proyectos individuales muy buenos pero
esos proyectos no consiguen actuar en red. Colombia
produjo ejemplos virtuosos, consiguió actuar en red.
Eso es muy importante. América Latina no debería buscar
inventar la rueda cuando se trata de políticas de
seguridad pública. Las políticas de seguridad
pública no son simplemente políticas locales y gubernamentales,
también son políticas de Estado. Los gobiernos tienen
que seguir planes estratégicos con el objetivo de
minimizar su carácter letal. Una política de seguridad
que pretenda ser contenedora de la violencia no puede
incitar a la policía a matar cada vez más. La función
de la policía no es la de matar, sino la de proteger
la vida. Esto también tiene que ver con lo cultural.
La sociedad tiene que asumirlo y preguntarse qué es
lo que desea para sí. Mi miedo es que la sociedad
civil -fundamentalmente, la brasileña- se vuelva cada
vez más contraria a los derechos humanos, lo que representaría
un conflicto sin igual. La vida de un pariente mío,
la del prójimo, la de mi vecino hay que garantizarla
y respetarla. ¿Y la del otro, la del chico negro y
pobre? Su destino es la "fosa", la muerte. Mientras
no cambie esa idea de que a nuestros allegados les
corresponde todo, y a los otros, fantasmagóricos de
la sociedad, solamente la muerte, será imposible crear
un tipo de cultura cívica mínimamente solidaria. Esta
es una carencia, una fragilidad de toda América Latina.

NA - Hable un poco más sobre
las políticas públicas en esta área.
PJ - Las políticas públicas en Brasil normalmente
no funcionan de forma integrada. Ese es su punto débil.
Esto no ocurre solamente con las políticas contra
la violencia, sino también con las políticas raciales,
con las de género. Es como entrar a un edificio, de
cuyos departamentos conocemos solo algunos. No hay
un administrador que estructure todos los diferentes
intereses, que busque proteger a todos. Cada uno cuida
de sí y es jefe de sí mismo. Cada uno cambia su propia
ventana, adorna el pasillo como quiere, hace lo que
le parece. De esta manera, no solo no hay posibilidades
de entendimiento, sino que además, se acaba construyendo
un frankestein. No me refiero a una política centralizada,
sino a una política transversal. Esta tiene que proteger
a los más vulnerables con el objetivo de que todos
podamos gozar de mayor seguridad. Al joven no se lo
protege únicamente con educación o cultura. Al joven
se lo protege dándole desde una escuela digna y salud,
hasta la posibilidad de tener acceso a la cultura
y a una capacitación profesional para que, de esa
manera, tenga empleo y una vida digna y justa. Solo
entonces tendrá autoestima y podrá recibir reconocimiento
por su trabajo. Si no conseguimos unir estas puntas,
continuaremos en la misma situación trágica en la
que estamos.
NA - Háblenos un poco sobre
la búsqueda de la igualdad, pero manteniendo el respeto
a las diferencias.
PJ - Esa es una paradoja del mundo moderno, quizá
del post-moderno. Tenemos que inventar una forma de
conjugar esa problemática. Hasta 1960, existió una
política democrática, fundamentalmente de izquierda,
que pensaba así: resolver los problemas del mundo
equivale a resolver los problemas de redistribución.
A partir de los años 70 el foco se altera. Ya no hay
más políticas universalistas, sino políticas de reconocimiento.
Es decir, el problema de las identidades (el debate,
la búsqueda de afirmación), representado en la lucha
de las minorías (género, étnicas, raciales) comienza
a imponerse. El mayor desafío del siglo XXI no es
A o B, redistribución o reconocimiento, sino más bien
conjugar A y B, tal como afirma Nancy Fraser, a través
de la creación de políticas de redistribución extremamente
significativas que puedan crear condiciones mínimas
de igualdad societaria. A todo esto, claro, se le
suman las políticas de reconocimiento, de igualdad,
sin que se caiga en el substancialismo. Esas identidades
también son flexibles, son plurales. ¿De qué manera
negociar un mundo con tanta diversidad? El desafío
es enorme. Hay un juego que me parece sensacional
y que consiste en lo siguiente: los romanos hacían
puentes; nosotros hacemos puentes tal como los hacían
ellos. Y construimos algunos mucho más complejos que
los de los romanos. Los romanos tenían problemas de
justicia social; nosotros también, pero no conseguimos
igualarnos, tal como lo hacemos con los puentes. Nuestros
problemas son los de la vida societaria, son problemas
ligados con la escasez, con las diferencias y con
un mínimo consenso de justicia. No enfrentar los problemas
es una gran cobardía. Tenemos que enfrentarlos
y, a mi modo de ver, tenemos que hacerlo intentando
buscar una conciliación de esos dos puntos. Política
de distribución, sí, y también política de reconocimiento.
Pero debemos cuidar que las mismas no se transformen
en polos substancialistas. Haciendo esto contribuiremos
a que el mundo avance de modo significativo. Habrá
menos sufrimiento. Pensar en un mundo bueno ya sería
ser demasiado optimista. Pensemos mejor en un mundo
posible.
(NA)
[1]
Nombre de un grupo paramilitar compuesto, principalmente,
por miembros de las fuerzas de seguridad civiles y militares,
involucrado en acciones del crimen organizado.
[2] El 17 de abril de 1996, en el municipio de Eldorado
dos Carajás, al sur del Estado de Pará, la policía militar,
a mando del gobernador Almir Gabriel, abandona negociaciones
con un grupo de Sin Tierra, y opera una acción de guerra
que deja 19 muertos y 46 heridos, todos trabajadores
sin tierra.
[3] Nombre que se le da usualmente a Río de Janeiro.
[4] Escritor brasileño que vivió entre 1912 y 1980.
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