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O
cinema das periferias apresenta novos olhares sobre
o real
Miguel Pereira
Professor da PUC-Rio.
Rio de Janeiro - Brasil
serpa@puc-rio.br

A
partir de iniciativas originadas en comunidades o
barrios populares, un nuevo cine surgió en el contexto
brasileño contemporáneo, fundamentado en diferentes
modelos estéticos y modos de producción que, a pesar
de la difícil participación en los mecanismos de financiamiento
y apoyo, está consiguiendo espacio bajo diversas formas
de exposición. Estos grupos cumplen hoy un papel de
cambio importante en las relaciones de sociabilidad
en el ambiente existencial de los grupos comunitarios,
generando una nueva realidad que está impulsando el
proceso de enseñanza de cine, producción, distribución
y exhibición, con foco en la formación de platea,
además de la democratización del audiovisual que las
nuevas tecnologías están propiciando.
No contexto do cinema brasileiro contemporâneo,
não é possível mais ignorar um fenômeno de produção
que está se impondo como uma realidade mercadológica
nova. Não é o cinema de classe média, nem da "burguesia".
Ele vive à margem do sistema. Mas, pouco a pouco,
está buscando sua fatia no mercado institucional do
audiovisual brasileiro. Ancorado em iniciativas originadas
em comunidades ou bairros populares, esse cinema se
fundamenta em diferentes agenciamentos estéticos e
modos de produção. São formas que se estruturam num
campo bastante móvel, pois flutuam de acordo com recursos
instáveis e de acesso reduzido. A própria origem desses
grupos dificulta a participação nos mecanismos de
financiamento e apoio. No entanto, esse cinema persiste
e vem conseguindo espaço em diversas janelas de exposição.
Sem querer ainda caracterizar ou categorizar as diferentes
iniciativas que existem no país, tento, aqui, descrever
algumas no âmbito do Rio de Janeiro. A primeira da
qual tive conhecimento e se tornou uma experiência
sistemática foi a da Central Única das Favelas, a
CUFA, criada a partir do movimento musical do Hip
Hop, liderado por MV Bill. Hoje é um complexo cultural,
situado na Cidade de Deus, e com ramificações em outras
comunidades e outros estados brasileiros. Ela surge
pela iniciativa de grupos que se reuniram a partir
da motivação musical e seguiram direções as mais diversas
de acordo com o interesse espontâneo de cada um. Da
música para o teatro, deste para os clips e para o
cinema. Neste campo, antes mesmo da produção mais
constante de filmes, organizaram- se cursos, mais
ou menos sistemáticos de cinema.
Nesses primórdios, a CUFA tinha um escritório em Madureira
e uma espécie de sala para os cursos e exibições de
filmes. Por lá passaram cineasta como João Moreira
Salles, Cacá Diegues, entre outros, e professores
de cinema com Ivana Bentes, Andréa França, José Carlos
Avellar e muitos mais. Não poderia chamar de oficinas
a essas aulas sistemáticas, dadas aos sábados, em
tempo integral e obedecendo a um currículo. Tinham
como foco a linguagem do cinema e a sua historia.
A produção propriamente dita tomava a forma de oficinas.
Toda a parte técnica foi ministrada por profissionais
do cinema. Mas, a CUFA também levou realizadores,
como Eduardo Coutinho, para discutir com os grupos
o ofício do documentarista. Várias turmas se diplomaram
nessa forma de ensino e fizeram suas produções primeiras
a partir do processo do conhecimento e da cultura
cinematográfica. Portanto, sem querer qualificar os
resultados, a CUFA criou um modelo que tem por base
o estudo do cinema em diferentes dimensões, incluindo
a reflexão histórica e teórica. Hoje a CUFA é uma
instituição nacional e bastante premiada no Brasil
e no exterior.
SEMPRE EM MOVIMENTO
No Rio de Janeiro, são muitos os grupos de cinema
que se originaram em comunidades periféricas. Só para
citar alguns que já têm uma certa notoriedade: Nós
do Morro, Nós do Cinema, Cinemaneiro, Afro Reggae,
Observatório das Favelas, Japeri, entre tantos outros.
É um fenômeno em crescimento. Uns se originaram
a partir do teatro, como Nós do Morro, com o trabalho
magnífico de Guti Fraga, outros no próprio cinema,
como o Nós do Cinema, criado para o trabalho de preparação
do elenco de "Cidade de Deus", realizado por Kátia
Lund. Já o AfroReggae inicia com a música e hoje,
junto com outros parceiros, se dedica também a produção
de filmes. Nesse conjunto, tem um pouco de tudo. Alguns
já se institucionalizaram, enquanto outros estão em
busca do reconhecimento e da organização. De qualquer
modo, têm uma expressiva e contínua produção cinematográfica.
Já se realizaram dois encontros nacionais, o "Visões
Periféricas", no Rio de Janeiro.
Presente em muitos estados brasileiros, está formando
novos produtores populares para o audiovisual. È impossível
uma estimativa confiável do número de profissionais
oriundos desses núcleos, pois ainda não foi realizada
nenhuma pesquisa nesse sentido. Hoje, cumprem um papel
de mudança importante nas relações de sociabilidade
no ambiente existencial dos grupos comunitários.

Diante da diversidade existente de filmes, vou me
fixar em algumas produções do Núcleo Cinemaneiro,
com o qual aliás, tive maior interação nos primórdios
do grupo. Já produziram mais de 40 filmes de curta
e média-metragem, em diversas comunidades do Rio de
Janeiro. Desse conjunto, destaco dois filmes, "Sinceridade",
de Wavá Novais, e "Espinha de peixe", de Manaíra Carneiro,
considerando que abordam temas de interesse amplo.
O primeiro trata, na chave da ironia, de situações
da vida cotidiana, encenadas como representação das
relações diversas por que passa o seu personagem central
ao longo de um dia. Por um efeito simples, a mudança
de atitude dos interlocutores dá sentido ao título.
Apesar da simplicidade narrativa, o filme tem uma
dose de humor bastante criativa e torna o que poderia
ser um elemento de saturação, algo mais criativo.
Por outro lado, ao trazer para a cena principal a
hipocrisia do comportamento corriqueiro, o filme também
se coloca na proposta da mudança, isto é, acredita
no seu discurso de que a sinceridade é sempre melhor
do que a dissimulação. Sua estrutura é de uma série
de esquetes que vão se sucedendo em situações prováveis
e improváveis. Portanto, está mais próximo de uma
colagem de situações do que de um enredo articulado.
Esta narrativa se filia aos filmes de episódios e
lhe cabe bem. Embora curtos, esse fragmentos, buscam
uma certa redundância da comunicação e a sua reinteração
afirma o mesmo discurso, em cenários diferentes. Utiliza,
assim, uma estética próxima aos quadros de humor já
bastante conhecidos da televisão, embora neste caso,
seja o mesmo personagem que representa todas as situações.
Não quero dizer que Wavá foi buscar ali a sua inspiração.
Mas, essa estrutura narrativa tem o seu desenvolvimento
a partir dessa forma fragmentada que acompanha o cinema
desde a sua invenção. Atrações sucessivas, como se
fosse quadros colados uns aos outros. A simplicidade
da narração, no entanto, busca um certo estilo que
distingue este filme dos programas televisivos. São
alguns efeitos de imagem, certa interpretações naturalistas
dos atores, uma certa verdade que a imagem traduz
para o espectador, enfim, um tom realista da representação.
Mas, sem dúvida alguma, o humor é o traço preponderante
das situações encenadas.

Não se trata aqui de um real chocante. Ao contrário,
está mais próximo da roda de amigos e da descontração.
Pode ser classificado com um filme que utiliza as
estéticas do real, sem, entretanto, pesar sobre elas.
O realismo está mais na representação e forma de encenar
do que propriamente nos temas apresentados. Alguns
são mais improváveis que outros e por isso se aproximam
da caricatura, de certa forma estereotipada. Então,
é a imagem que cola no real e não o real que cola
na imagem. Esse agenciamento estético não pode ser
confundido com ingenuidade ou primarismo de concepção.
No fundo, há tom amargo na constatação de que as relações
são atravessadas pela hipocrisia e descompromisso
com o outro. Desse ponto de vista, o filme do Wavá
apresenta um diferencial estético em relação aos programas
de televisão e mesmo ao cinema de humor que, aliás,
pouco se produz no Brasil. Não se trata de uma mudança
estética assim tão acentuada, mas uma reapropriação
de alguns de seus códigos sob um olhar que incorpora
uma observação social cujo desejo é a mudança. Essa
talvez seja a contribuição espontânea maior desse
cinema construído a partir de oficinas ou cursos menos
exigentes do ponto de vista acadêmico. É um novo olhar
que nos implica.
Já "Espinha de peixe", de Manaíra Carneiro, narra
o cotidiano de uma família de classe média baixa,
onde a hipocrisia também está presente. Só que desta
vez, ela se esconde na figura de um pai autoritário
que abusa sexualmente da filha. Realizado também no
mesmo procedimento estético do filme "Sinceridade",
tem como estrutura narrativa uma outra estratégia.
Seu estilo está baseado nas elipses de tempo e espaço.
Essa forma de conceber está intimamente ligada às
próprias dificuldades de lidar com o tema e a produção
das imagens. Essa estratégia, aliás, é uma das mais
eficientes do cinema. Cria a expectativa e o suspense.
Aqui ela é usada também como forma de não visibilizar
cenas que pudessem ser chocantes ou sensacionalistas.
Esta me parece uma verdadeira intenção do filme. A
cena do abuso sexual é sutil e apenas insinuada. Só
mais adiante da narrativa é que se confirma através
de um diálogo. O que está em jogo é exatamente um
tratamento que procura evidenciar um discurso moralista
e condenatório desse tipo de atitude. As elipses são
assim coerentes com esse procedimento que não revela
na imagem, mas apenas sugere. É claro que se pode
também falar de dificuldades prováveis em relação
à produção e mesmo aos atores. No entanto, parece-me
bem evidente essa estratégia de condenar o fato, mas
reter o medo como explicação da não denúncia do personagem.
Significa dizer que o filme, de certo modo, é fiel
à realidade. São situações complexas e doenças morais,
sociais e culturais que se escondem por anos a fio.
Ainda, recentemente, esse fenômeno ocorreu na Áustria.
A coragem de abordá-lo, num filme realizado dentro
de comunidades mais pobres, onde relatos dessa natureza
são comuns, é também uma forma de fugir ao moralismo
primário, mas fazer a denúncia e levar o espectador
a pensar nesse lugar de desejo asfixiado por uma consciência
social hipócrita. Neste sentido, o filme de Manaíra
Carneiro se alinha aos mesmos procedimentos estéticos
que nos levam a um lugar diferente. O real não é dissimulado.
Aparece mais forte nas elipses narrativas e mostra
um olhar condenatório, sem excessos.

São dois filmes que demonstram ainda uma certa errância
narrativa e técnica, mas que apresentam uma postura
diferente da produção que domina do mercado atual
brasileiro. Penso que devemos não apenas respeitar
essa produção, mas contribuir para o seu aprimoramento
tanto no sentido estético como mercadológico. A CUFA,
Nós do Morro, Afro Reggae e outras produtoras estão
buscando parcerias fora do sistema oficial. Não
podemos, portanto, ignorar essa nova realidade que
está impulsionando o processo de ensino de cinema,
a produção, a distribuição, em DVD principalmente,
e a exibição, com foco na formação de platéia, além
da democratização do audiovisual que as novas tecnologias
estão propiciando. (NA)
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