|
Narrativas
Televisivas e Identidade Nacional:
o caso da telenovela brasileira
Maria Immacolata Vassallo de Lopes
Professora titular e Coordenadora do Centro de Estudos
de Telenovela da Escola de Comunicações e Artes da
Universidade de São Paulo - Brasil - immaco@usp.br

La
telenovela en Brasil conquistó reconocimiento público
como producto artístico y cultural y ganó visibilidad
como agente central del debate sobre la cultura y
la identidad del país. Constituye un ejemplo de narrativa
que, más allá de su dimensión de entretenimiento,
impregna la rutina cotidiana de la nación, construye
mecanismos de interactividad y una dialéctica entre
el tiempo vivido y el narrado, y se configura como
experiencia cultural, estética y social. La situación
peculiar alcanzada por la telenovela brasileña es
responsable por su reconocimiento como narrativa nacional,
popular y artística, además de tema de estudio sobre
la cultura y la sociedad contemporánea.
INTRODUÇÃO
Quase quarenta anos após a sua introdução, é possível
afirmar que a telenovela no Brasil conquistou reconhecimento
público como produto artístico e cultural e ganhou
visibilidade como agente central do debate sobre a
cultura brasileira e a identidade do país. Ela também
pode ser considerada um dos fenômenos mais representativos
da modernidade brasileira, por combinar o arcaico
e o moderno, por fundir dispositivos narrativos anacrônicos
e imaginários modernos e por ter a sua história fortemente
marcada pela dialética nacionalização-masmediação.
A outra face desse processo foi o progressivo reconhecimento
acadêmico da importância da telenovela como objeto
privilegiado de estudo sobre a cultura e a sociedade
contemporânea brasileira. Esta situação peculiar alcançada
pela telenovela brasileira é responsável pelo caráter,
senão único, pelo menos muito peculiar, de caracterizar-se
como narrativa nacional, popular e artística, além
de se tornar tema de estudo consolidado.
A TELENOVELA NO CENÁRIO TELEVISIVO BRASILEIRO
A presença maciça da televisão em um país situado
na periferia do mundo ocidental poderia ser descrita
como mais um paradoxo de uma nação que ao longo de
sua história foi representada reiteradamente como
uma sociedade de contrastes acentuados, entre riqueza
e pobreza, modernidade e arcaismo, sul e norte, litoral
e interior, campo e cidade. E, de fato, a televisão
está implicada na reprodução de representações que
perpetuam diversos matizes de desigualdade e discriminação.
Mas, também é verdade que ela possui uma penetração
intensa na sociedade brasileira devido a uma capacidade
peculiar de alimentar um repertório comum por meio
do qual pessoas de classes sociais, gerações, sexo,
raça e regiões diferentes se posicionam e se reconhecem
umas às outras. Longe de promover interpretações consensuais
mas, antes, produzir lutas pela interpretação de sentido,
esse repertório compartilhado está na base das representações
de uma comunidade nacional imaginada que a TV capta,
expressa e constantemente atualiza.[1]
A televisão oferece a difusão de informações acessíveis
a todos sem distinção de pertencimento social, classe
ou região. Ao fazê-lo, ela torna disponíveis repertórios
anteriormente da alçada privilegiada de certas instituições
socializadoras tradicionais como a escola, a família,
a igreja, o partido político, a agência estatal. A
televisão dissemina a propaganda e orienta o consumo
que inspira a formação de identidades (Canclini, 1995).
Nesse sentido, a televisão, e a telenovela em particular,
é emblemática do surgimento de um novo espaço público,
no qual o controle da formação e dos repertórios disponíveis
mudou de mãos, deixou de ser monopólio dos intelectuais,
políticos e governantes, dos titulares dos postos
de comando da sociedade.[2]

Duplamente contraditório é o fato desse espaço público
surgir sob a égide do setor privado, onde, não por
coincidência, o produto de maior popularidade e lucratividade
da televisão brasileira é a telenovela e sob a égide
da vida privada, uma vez que a narrativa televisiva
já foi definida como uma narrativa por excelência
sobre a família.[3] A novela dá visibilidade a certos
assuntos, comportamento, produtos e não a outros;
ela define uma certa pauta que regula as interseções
entre a vida pública e a vida privada.[4] Vendo a
telenovela a partir dessas categorias, podemos dizer
que durante o período de 70 e 80, ela se estruturou
em torno de representações que compunham uma matriz
capaz de sintetizar a formação social brasileira em
seu movimento modernizante. Isto pode ser traduzido
por um quase monopólio da representação social calcada
a partir das angústias privadas das famílias de classe
média do Rio de Janeiro e São Paulo. Com a diversi-
ficação da estrutura da televisão (TV a cabo, vídeo,
maior concorrência) e as modificações sociais e políticas
em curso nos anos 90 (redemocratização política, novos
movimentos sociais, processo de globalização), essa
força de síntese do gênero desloca- se para novas
representações que questionam as representações modernizantes
anteriores.
A PRODUÇÃO DE UMA TELEDRAMATURGIA NACIONAL OU "EU
VEJO O BRASIL NA NOVELA"
A consolidação da novela como o gênero mais popular
e lucrativo da televisão está vinculada a uma mudança
de linguagem, saudada pelos autores brasileiros com
trabalho acumulado no rádio e no cinema. A oposição
entre novelas "realistas", críticas da realidade social,
cultural e política brasileira, e novelas "fantasiosas",
ou dramalhões feitos para fazer chorar, marcou o debate
entre os profissionais de novela, assim como a literatura
sobre o tema e a opinião da audiência. Para além dessa
oposição, interessa marcar que embora a versão "fantasiosa",
também conhecida como "mexicana", procure se manter
distante do comentário social e político e não admita
o humor, a versão nacional, apesar de incorporar comentários
sobre assuntos contemporâneos também se rege fortemente
pelas origens folhetinescas do gênero.
A partir do final dos anos 60 e seguindo modelo proposto
pela Rede Tupi[5], as novelas da Rede Globo se contrapuseram
ao estilo "fantasioso" que dominava a produção anterior,
propondo uma alternativa "realista" (Ortiz, 1989;
Mattelart e Mattelart, 1989). É a ruptura com o modelo
representado pela novela Sheik de Agadir (Globo, 1966),
com seus personagens com nomes estrangeiros vivendo
dramas pesados, diálogos formais e figurinos pomposos,
ambientados em tempos e lugares remotos, para o paradigma
da novela brasileira que foi sendo construído a partir
da novela Beto Rockfeller (Tupi, 1968). Este paradigma
trouxe a trama para o universo contemporâneo das cidades
grandes brasileiras, o uso de gravações externas,
introduziu a linguagem coloquial, o humor inteligente,
uma certa ambigüidade dos personagens e, principalmente,
referências compartilhadas pelos brasileiros. Sintonizou
as ansiedades liberalizantes de um público jovem,
tanto masculino como feminino, recém-chegado à metrópole,
em busca de instrução e integração nos pólos de modernização.
As convenções que passaram a ser adotadas daí em diante
baseiamse de que cada novela deveria trazer uma "novidade",
um assunto que a diferenciasse de suas antecessoras
e fosse capaz de "provocar" o interesse, o comentário,
o debate de telespectadores e de outras mídias, o
consumo de produtos a ela relacionados, como livros,
discos, roupas, etc. Essa ênfase na representação
de uma contemporaneidade sucessivamente atualizada
é visível na moda, nas tecnologias, nas referências
a acontecimentos correntes. Mas é visível também na
evolução na maneira como o amor, o sentimento, o romance
e a relação homem-mulher foram representados nas novelas
dos anos 70 em diante.

Essa opção por uma definição clara no tempo e no espaço
- quase sempre a conjuntura contemporânea situada
no âmbito da nação - potencializa a vocação da novela
de mimetizar e de constantemente renovar as imagens
do cotidiano de um Brasil que se "moderniza". Isso
pode ser identificado através dos dois planos estruturais
de toda novela: o renovado senso de exploração de
temas contemporâneos e o verdadeiro "efeito-demonstração"
dos padrões de consumo vividos pelos personagens que
acena para a população de espectadores com a possibilidade
concreta de integração social por meio do consumo.
Essa quase obsessão pela conjuntura e a moda é acomodada
à estrutura seriada e interativa do folhetim e mobiliza
repetidamente o gênero melodramático como matriz cultural
e dispositivo de comunicabilidade (Martín-Barbero,
1987). A trama das novelas são em geral movidas por
oposições entre homens e mulheres; entre gerações;
entre classes sociais; entre localidades rurais e
urbanas, "arcaicas" e "modernas", representadas como
tendências intrínsecas e simultâneas da contemporaneidade
brasileira. Outros recursos dramáticos típicos como
identidades falsas, trocas de filhos, pais desconhecidos,
heranças repentinas, ascensão social via casamento
estão presentes de maneira recorrente e convivem bem
com referências a temáticas e repertórios nacionais
e atuais na época em que vão ao ar.
Alçada à posição de principal produto de uma indústria
televisiva de grandes proporções, a novela passou
a ser um dos mais importantes e amplos espaços de
problematização do Brasil, das intimidades privadas
às políticas públicas. Essa capacidade sui generis
de sintetizar o público e o privado, o político e
o doméstico, a notícia e a ficção, o masculino e o
feminino, está inscrita no texto das novelas que combinam
convenções formais do documentário e do melodrama
televisivo. É isso que, a nosso ver, mais tipifica
a telenovela brasileira e constitui o paradoxo de
se identificar o Brasil mais numa narrativa ficcional
do que no telejornal. São recorrentes nas novelas
a identificação entre personagens da ficção e figuras
públicas reais, entre as tramas e os problemas reais
e a tendência para uma maior verossimilhança nas histórias
contadas, esta, aliás, uma demanda forte do próprio
público.[6] Tal combinação de gêneros e informações
pode ser encontrada, por exemplo, no uso de documentários
de época inseridos nas seqüências de novelas desde
Irmãos Coragem (1970, novela de tempo atual) à Terra
Nostra (1998, novela de época). Ainda pode-se mencionar
a mais recente "invasão" de realidade na novela Porto
dos Milagres (2001) pelo uso, no intervalo comercial,
de clipes de campanha eleitoral com os personagens
da novela, provocando o efeito de realidade de uma
propaganda feita por partidos políticos verdadeiros.
Finalmente, a incorporação do noticiário, levada às
últimas conseqüências, e que passou a ser denominada
de merchandising social (Schiavo, 1995). Ainda sem
este nome, a novela O Espigão (1974) já apresentava
uma campanha pelo meio ambiente. Em novelas recentes,
houve a divulgação do trabalho das ONGs e a presença
de mães de crianças desaparecidas em Explode Coração
(1995); o Movimento dos Sem-Terra e a presença de
dois senadores da república em velório do senador
da ficção em O Rei do Gado (1996); a denúncia da exploração
do trabalho infantil em A Indomada (1997); o tema
da AIDS em Zazá (1997); a doação de medula óssea e
a presença de médicos explicando o câncer de uma jovem
em Laços de Família (2000); as drogas e o depoimento
de viciados em tratamento em O Clone ( 2001).
TELENOVELA COMO NARRATIVA DA NAÇÃO.
PACTO DE RECEPÇÃO E TERRITÓRIOS DE CIRCULAÇÃO DE SENTIDOS
Não resta dúvida de que a novela constitui um exemplo
de narrativa que ultrapassou a dimensão do lazer,
que impregna a rotina cotidiana da nação, construiu
mecanismos de interatividade e uma dialética entre
o tempo vivido e o tempo narrado e que se configura
como uma experiência, ao mesmo tempo, cultural, estética
e social. Como experiência de sociabilidade, ela aciona
mecanismos de conversação, de compartilhamento e de
participação imaginária. A novela tornou-se uma forma
de narrativa sobre a nação e um modo de participar
dessa nação imaginada. Os telespectadores se sentem
participantes das novelas e mobilizam informações
que circulam em torno deles no seu cotidiano.[7]
As relações do público com as novelas são mediadas
por uma variedade de instituições, pesquisas de audiência,
relações pessoais, contatos diretos com autores, além
da imprensa e da mídia especializada.
Tão importante quanto o ritual de assistir os capítulos
das novelas cotidianamente é a informação e os comentários
que atingem a todos, mesmo àqueles que só de vez em
quando ou raramente vêem a novela. As pessoas, independentemente
de classe, sexo, idade ou região acabam participando
do território de circulação dos sentidos das novelas,
formado por inúmeros circuitos onde são reelaborados
e ressemantizados. A novela é tão vista quanto falada
e seus significados são o produto tanto da narrativa
audiovisual produzida pela televisão quanto da interminável
narrativa oral produzida pelas pessoas. Como muitas
pesquisas já mostraram, a novela começa a ser comentada
durante o próprio ato de sua assistência. Conversa-se
sobre ela em casa, com o marido, a mãe, os filhos,
a empregada, com os vizinhos, os amigos, no trabalho.
Fala-se dela nas revistas especializadas em comentários
e fofocas sobre novelas; em colunas dos jornais diários,
tanto os de prestígio como os populares; nas pesquisas
de opinião feitas por institutos; nas cartas de leitores
mandadas aos jornais e revistas; nos programas de
televisão e rádio que acompanham as novelas tanto
em forma de reportagem e entrevistas com seus atores,
como em programas de humor onde elas são satirizadas.
A novela também aparece nas músicas dos CDs de trilhas
sonoras que são especialmente compostas; em todo um
circuito de merchandising que vão das roupas e jóias
usadas pelos atores aos objetos de decoração, bebidas,
carros, lojas e bancos que aparecem nas histórias;
nos comerciais com os atores das novelas que estão
no ar.
Os autores declaram expressamente à imprensa que procuram
pessoas na rua para saber as suas opiniões sobre o
que estão escrevendo para assim ter idéias sobre o
desenvolvimento dos personagens. As gírias e maneirismos
usados por certos personagens são incorporados rapidamente
na linguagem do dia-adia; nomes de personagens entram
em moda e crianças são batizadas com eles; nomes de
novelas passam a ser nomes de padarias e lojas; também
nomes de alguns personagens são usados como adjetivos
para designar o caráter desviante de pessoas.
Além disso, situações vividas por um personagem na
novela ou as características de seu caráter podem
ser objeto de mobilização de sindicatos, do movimento
negro ou gay, de políticos, de comunidades étnicas
que criticam ou reivindicar mudanças em situações
e personagens que contrariariam a sua imagem pública.[8]
As novelas ainda podem ser encontradas refletidas
nas propostas de projetos de lei para o estabelecimento
quotas para atores negros e disciplinando o trabalho
de atores infantis e adolescentes. Freqüentemente,
as tramas das novelas provocam a discussão da necessidade
de códigos de ética por parte das emissoras de TV,
seja em forma de lei ou de autoregulamentação.

E, finalmente, as novelas provocam a torcida por personagens
que se encontram em confronto ou sobre o que elas
devem fazer ou sobre a mudança que deve haver no seu
comportamento. O mais novo espaço ocupado por toda
essa conversação que a novela provoca é a internet,
onde cada novela tem seu site (informado ao final
da ficha técnica que encerra cada capítulo diário),
e as opiniões se expressam em inúmeras listas de discussão,
blogs, etc.[9]
A força e a repercussão da novela mobilizam cotidiamente
uma verdadeira rede de comunicação, através da qual
se dá a circulação dos seus sentidos e provoca a discussão
e a polêmica nacional. Através desse fórum de
debates capilarmente difuso, complexo e diversificado,
as pessoas sintetizam experiências públicas e privadas,
expressam divergências e convergências de opinião
sobre ações de personagens e desdobramentos de histórias.
O caráter de repertório compartilhado permite a manifestação
de diferenças, a expressão das competências sobre
o gênero, de domínio das convenções dramatúrgicas
da telenovela, da sensibilidade do olhar que cerca
os detalhes, seja nos cenários e nos figurinos, seja
nos múltiplos plots que se entrelaçam no emaranhado
de 200 capítulos para, ao fim, emitir seu julgamento
sobre diversos finais dessas tramas. Critica-se ou
aplaude-se a produção pela condução da obra.
Quando uma novela galvaniza o país, nesse momento
ela atualiza seu potencial de sintetizar o imaginário
de uma nação, isto é, a sua identidade, ou o que é
o mesmo, de se expressar como nação imaginada. Esta
representação, ainda que estruturalmente melodramática
e sujeita à variedade de interpretações, é aceita
como verossímil, vista e apropriada como legítima
e objeto de credibilidade. Há um consenso na literatura
em denominar esse imaginário como moderno, uma vez
que as novelas movimentam os imaginários modernos
da nação sobre alguns eixos temáticos recorrentes
e que, em síntese são: a mobilidade social, a nova
família, a diversidade sexual, étnica, racial, a afirmação
feminina, a renovação ética.
É, no mínimo, curioso que um programa inicialmente
classificado pela indústria como entretenimento dirigido
às mulheres de classe "C" tenha dominado o horário
nobre da televisão brasileira e se transformado num
fórum de debates sobre a nação, compartilhado por
um público nacional composto por mulheres, homens
e crianças em todos os grupos sociais e locais do
território nacional. A novela talvez seja um exemplo
único de como um sistema de mídia televisivo pode
ser responsável pela emergência de um espaço público
peculiar que nos anos atuais se diversificou e se
apresenta como alternativa principal de realização
pessoal, inclusão social e de poder, isto é, como
uma nova forma de cidadania. A novela, enfim, conseguiu
permeabilizar o espaço público brasileiro à atualização
e à problematização da identidade nacional em um período
de profundas e aceleradas transformações. (NA)
[1] B. Anderson (1991) cunhou a noção "comunidade
imaginada" para descrever a emergência dos Estados Nacionais
na Europa do século XIX e associa a consolidação do
sentimento de pertencimento a uma comunidade imaginária
ao surgimento da imprensa escrita e das línguas nacionais.
O ritual de leitura do jornal é apontado como exemplo
de ritual que contribui para a consolidação desse sentimento
de comunidade nacional. A noção é útil para entender
o significado das telenovelas no Brasil, na medida em
que o ato de assistir as esses programas num determinado
horário, diariamente, ao longo de quase 40 anos, constitui
um ritual compartilhado por pessoas em todo o território
nacional, que dominam as convenções narrativas consolidadas
pela telenovela e que tomam os padrões nela mostrados
como referenciais de acordo com os quais definem "tipos
ideais" (no sentido weberiano) de família brasileira,
mulher brasileira, homem brasileiro e também de corrupção
brasileira, violência brasileira, etc. Parece-me adequado
usar a noção de comunidade nacional imaginada para indicar
as representações sobre o Brasil veiculadas pelas novelas
e às maneiras como elas produzem referenciais importantes
para a reatualização do conceito de nação e de identidade
nacional. No caso brasileiro, trata-se, como veremos
adiante, do fato paradoxal da telenovela, uma narrativa
ficcional ter se convertido no Brasil em um espaço público
de debate nacional.
[2] J. Meyerowitz (1984) sugere o deslocamento de repertórios
de esferas restritas a homens ou mulheres, jovens ou
adultos, como uma característica importante da televisão.
[3] Evocando o intelectual mexicano Carlos Monsiváis,
a telenovela seria uma narrativa familiar sobre a nação,
em que uma guerra é vista como um fato onde morreu um
tio e uma cidade como um lugar onde mora um parente.
[4] À telenovela aplica-se tanto o conceito de agenda
setting como o de fórum cultural (Newcomb, 1999).
[5] A Rede Tupi foi a primeira rede de televisão do
Brasil, marcou época como pioneira nos caminhos de uma
dramaturgia própria da televisão com base em temas e
personagens brasileiros. Com a sua falência nos anos
70 inicia-se a hegemonia da Globo.
[6] São comuns as críticas tanto da mídia como do público
a certas situações tratadas numa novela como sendo irreais
e fantasiosas, cobrando mais realidade e menos ficção.
Essa tendência ao realismo, ou mais precisamente, a
uma naturalização das histórias contadas nas telenovelas
talvez esteja na base dos mecanismos de legitimação
e de credibilidade das novelas no Brasil. Sobre as relações
entre ficção e realidade na telenovela brasileira, ver
os trabalhos de Lopes et al (2001) e de Motter (2001).
[7] A partir de meados da década de 80, diante da insatisfação
com os trabalhos que se restringiam a interpretar o
conteúdo ideológico de programas televisivos, ou priorizavam
a análise políticoinstitucional da indústria cultural,
o foco dos estudos passou a recair sobre a recepção.
A análise desses estudos extrapola os objetivos do presente
texto. Limitamo-nos somente a ressaltar que o percurso
desses estudos foi marcado por uma ampliação das referências
teóricas e dos quadros metodológicos, em que passou-se
a adotar uma abordagem crescentemente complexa e interdisciplinar
a ponto de a recepção não ser mais tratada como um pólo,
mesmo que ativo, do processo de comunicação, como aparece
na grande literatura internacional sobre o tema. Nos
atuais estudos latinoamericanos, a recepção aparece
propriamente como uma perspectiva de análise, pela qual
todo o processo de comunicação é reconstituído (produção,
meio, texto e público). Parece que o termo "recepção"
já não alcança mais para dar conta desse tipo de pesquisa
, a que preferimos chamar de estudos de mediações .
A nosso ver, são estes os que passam a ser uma marca
distintiva das atuais pesquisas latino-americanas de
comunicação. Esses estudos no Brasil começaram por discutir
as diferenças de interpretação entre segmentos determinados
do público, como a classe social e a situação geográfica
até chegar aos estudos mais atuais que demonstram o
caráter interativo da novela, da construção de um repertório
compartilhado sobre a nação, do pacto de recepção entre
a produção e o público, numa dinâmica que ao longo dos
anos consolidou convenções formais de narrativa que
são de amplo domínio do público. As diferenças de interpretação
das novelas nas diferentes regiões, classes e segmentos
sociais, só são possíveis porque todos vêem a novela.
Como dissemos no início do presente texto, o significado
sóciocultural da telenovela no Brasil (e no restante
da América Latina) para a modernidade que se vive na
região, vai muito além de dos seus efeitos. E aqui parecem
caber as férteis pistas abertas por estudos sobre as
relações entre oralidade e visualidade, que vêem a televisão
e particularmente a telenovela, como dispositivos de
reordenamento da cultura (Martín- Barbero e Rey, 1999).
[8] As manifestações públicas quase sempre vão no sentido
de criticar as novelas por discriminação (pelo tratamento
indevido a personagens negros, gays, mulheres, crianças),
por difamação (por exemplo, políticos ou figuras públicas
que se sentem atingidas), por realçar traços negativos
de categorias profissionais ( como policiais, advogados,
médicos, jornalistas, empresários de multinacionais,
etc.).
[9] Como exemplo deste forum , um jornal promoveu uma
discussão baseada em uma reportagem em que se identificava
o "branqueamento" dos personagens numa novela recente
, Porto dos Milagres (2001), baseada em romance de Jorge
Amado cujos personagens são majoritariamente negros.
ANDERSON, Benedict (1991). Imagined communities. Londres:
Verso.
GARCÍA CANCLINI, Néstor (1995). Consumidores e cidadãos.
Rio de Janeiro: Ed. UFRJ.
LOPES, Maria Immacolata Vassallo et al.(2001). Vivendo
com a telenovela - Mediações, recepção, ficcionalidade.
São Paulo: Summus.
MARTÍN-BARBERO, Jesús (1987). De los medios a las mediaciones.
Barcelona: Gustavo Gili.
MARTÍN-BARBERO, Jesús e REY, German (1999). Los ejercicios
del ver. Barcelona: Gedisa.
MATTERLART, Armand e MATTELART, Michèle (1989). O carnaval
das imagens. São Paulo: Brasiliense.
MEYEROWITZ, Joshua (1984). No sense of place. Oxford:
University Press.
MOTTER, Maria Lourdes (2001). A telenovela: documento
histórico e lugar de memória. Revista USP, 48. São Paulo:
USP, CCS.
NEWCOMB, Horace (1999). La televisione da forum a biblioteca.
Milano: Sansoni.
ORTIZ, Renato et al.(1989) Telenovela: história e produção.
São Paulo: Brasiliense.
SCHIAVO, Marcio (1995). Merchandising social: uma estratégia
sócio-educacional para grandes audiências. Rio de Janeiro:
Universidade Gama Filho. |